Uma Canção Inesperada

Capítulo 1

 

William Darcy estava tendo um dia ruim.

Superficialmente, William parecia um objeto improvável de despertar compaixão. Qualquer passageiro se preparando para embarcar no vôo 853 da United Airlines naquela manhã estaria encantado se estivesse em seu lugar—um par de mocassins Italianos costurados à mão, polidos de forma impecável. Ele poderia encontrar dezenas de voluntários que trocariam seus assentos econômicos pela passagem de primeira classe enfiada no bolso de seu paletó esportivo azul marinho feito sob medida. E poucos de seus colegas de vôo masculinos se importariam de ser o foco de tantos olhares de admiração femininos.

Mas William parecia não estar consciente desse excesso de pontos positivos. Uma carranca parecia estar permanentemente atada ao seu rosto enquanto ele se curvava, para frente, numa cadeira plástica desconfortável, os cotovelos dele apoiados nos próprios joelhos. A cabeça dele caída como se o pescoço dele não pudesse suportar o peso de seus pensamentos, e os olhos dele, vermelhos, focados de maneira ausente nos tijolos cinza embaixo de seus pés.

Que maneira maravilhosa de começar essa viagem, ele pensou. Suspirando pesadamente, ele enterrou o rosto em suas mãos e massageou sua testa.

Os problemas dele haviam começado mais cedo–cedo demais—naquela manhã. Seu despertador acordou-o com um susto às quatro e meia da manhã, uma hora barbárica para alguém levantar, mas ainda pior para um notívago como William. Não fez diferença nenhuma que ele mesmo tenha acertado o despertador. No que lhe dizia respeito, o relógio deveria saber que não devia obedecer uma ordem tão idiota.

Ele não tinha certeza de quantas vezes ele tinha apertado o botão “soneca” em retribuição por suas más maneiras, mas às cinco horas a Sra. Reynolds bateu na porta do quarto dele para anunciar que o café-da-manhã esperava por ele. A promessa de uma xícara de café atraiu-o, fazendo-o sentar-se, mas ele afundou de volta nos travesseiros abruptamente, derrotado por uma onda de tontura. Na hora em que ele conseguiu sair da cama, estava muito tarde para o café-da-manhã, uma chuveirada, ou até mesmo um café. Ainda bem que a Sra. Reynolds sempre colocava uma garrafa térmica no carro para fortificá-lo nas “corridas” matutinas.

As ruas de Manhattan até o Aeroporto JFK seguiam complicadas, deixando-o ainda mais nervoso. Allen, o motorista de William, lutava bravamente para recuperar o tempo perdido. Infelizmente, a bruta mudança de faixas não combinou muito com as tentativas de William de assinar alguns papéis de última hora. Ele duvidava que alguém conseguisse reconhecer aquele rabisco de bêbado como sua assinatura, e ele havia ganho uma dor de cabeça que agora lhe martelava tentando ler enquanto o carro rapidamente mudava de direção.

Sua dor de cabeça não foi o único resultado da corrida. Ele olhava com raiva e longamente para as manchas de café em sua nova camisa de algodão Egípcio, cortesia de uma parada violenta que aconteceu assim que ele levantou a xícara térmica prateada até seus lábios.

E depois de toda essa pressa frenética, ele disparou, correndo até o portão de embarque, apenas para saber que seu vôo estava atrasado. “Que bom,” ele resmungou, resfolegado. “Ao menos, acho que este dia não pode ficar pior.”

Ele devia saber que não devia brincar com o destino. Quase que imediatamente, ele ouviu o som insistente de alguém limpando a garganta, enquanto viu um par de sapatos de salto alto entrando em seu campo de visão. Uma olhada para cima revelou uma mulher de meia-idade bem vestida, os olhos dela grandes e a boca dela aberta. Ele conhecia aquele olhar. As próximas palavras dela confirmaram os medos dele.

“Com licença—você não é William Darcy? O pianista concertista?”

“Sim.” Ele respondeu num tom curto e grosso, sem fazer contato visual.

“Desculpe-me por perturbá-lo, mas meu nome é Linda Hopewell e eu sou uma grande fã. Você é um artista tão maravilhoso!”

“Obrigado,” ele resmungou. Ele nunca sabia o que dizer quando fãs se aproximavam dele. Não era uma ocorrência diária, mas acontecia com freqüência demais, não o suficiente para que ele se adaptasse.

“Tenho todos os seus CDs,” Linda disse, quase que hiperventilando, “e eu o assisti em concertos tantas vezes que perdi a conta. Ai, meu Deus—não posso acreditar que realmente é você!”

Ele contorceu a boca num meio-sorriso. “Fico feliz que você tenha gostado dos concertos.” De todo coração, ele queria muito que ela fosse embora.

“Eu nunca vou me perdoar se não lhe pedir. Será que o meu marido poderia tirar uma foto de nós dois?”

Ele mal conseguiu disfarçar um gemido. Será que ela gostaria que, num dia, quando ela estivesse se sentindo muito mal, ele requisitasse uma sessão fotográfica sem prepará-la para isso? Ele imaginou o quão descuidado ele devia estar parecendo—manchas de café na camisa dele, o cabelo ondulado dele sem lavar e mais desarrumado do que nunca, o queixo cortado por ter se barbeado tão rapidamente que ele esperava ouvir um estouro. Mas Richard lembrava-lhe freqüentemente de ser educado com suas fãs, então ele obrigou-se a ficar de pé, suspirando. “Muito bem.”

“Muito, muito obrigada!” Linda se moveu em direção a um homem sentado do outro lado do saguão. “Bob! Venha até aqui e traga a câmera.”

Bob, que Linda apresentou-lhe como seu marido, moveu-se despreocupadamente com a câmera por um tempo indeterminado que lhe pareceram horas. Enquanto isso, Linda falava sem parar sobre concertos nos quais ela havia ido e sobre os CDs que ela desejava ter trazido com ela, para que assim ele pudesse autografá-los. Os lábios de William se comprimiram numa linha fina enquanto o fluxo contínuo de palavras dela enchia os ouvidos dele. Procurando por uma distração, ele olhava atentamente para a multidão de pessoas na área de embarque.

Uma jovem com uma mochila pendurada num dos ombros passou andando tranqüilamente, dando a volta por trás de Bob enquanto ele continuava mexendo na câmera. Depois de uma primeira olhada rápida, a cabeça dela voltou-se para William. Ela olhou fixamente para ele por um momento, e então os olhos dela se arregalaram. Ele conhecia aquele olhar também.

Ela parecia ter dezoito ou dezenove anos, provavelmente uma de suas “groupies” estudantes de música. O rosto pálido dela precisava de maquiagem, e o cabelo dela, uma grande massa de cabelos escuros e cacheados, estava preso de qualquer jeito num rabo-de-cavalo. Ela usava uma camiseta branca muito larga e amarrotada sobre uma saia jeans desbotada. Ele estava à ponto de apagá-la de seus pensamentos quando os seus olhos se encontraram com os dela, e uma excitante fagulha de eletricidade atingiu ambos. Os olhos dela eram extraordinários—de um leve verde, brilhando com energia e inteligência. Ele não queria ficar olhando fixamente para ela, mas não conseguia forçar-se a olhar para outra coisa.

“Sr. Darcy? Bob está pronto para tirar a foto agora.”

As palavras de Linda quebraram o encanto. William ajeitou suas feições, esperando estar esboçando o que ele esperava parecer um sorriso agradável.

“Diga ‘Tchaikovsky’!” Bob disse enquanto o flash disparou e o diafragma abriu e fechou.

Linda segurou o braço de William. “Eu simplesmente não tenho como dizer o quanto eu apreciei isso. A foto vai ficar maravilhosa na home page do seu web site!”

“Meu web site?” Um olhar confuso espalhou-se no rosto dele. A gravadora dele tinha uma web page sobre ele—a irmã dele, Georgiana, havia mostrado a ele uma vez—mas Linda não havia mencionado que trabalhava para eles.

“Sim. Eu criei um fan site como um tributo para você. Eu até tenho arquivos MP3 de suas gravações.”

Ele franziu a testa. Ele tinha ouvido falar que arquivos MP3 permitiam que as pessoas “roubassem” músicas dos CDs. Como um artista de gravadora, ele não gostou nada do som daquilo.

“Eu tive que aprender HTML para criar o site, e agora eu estou usando algumas scripts PHP para alguns destaques, como o guest book.”

“Entendo.” HTML? PHP? Deve ser linguagem de computador.

“Dá muito trabalho ser uma Webmistress, mas eu gosto.”

Webmistress? Isso soa meio… pervertido. Ele deu um passo para trás, olhando-a cuidadosamente.

“Talvez você gostasse de ver o site. Deixe-me achar um pedaço de papel, e eu vou escrever a URL para você.” Ela começou a fuçar dentro da bolsa.

URL?” Ele se sentiu como se tivesse caído numa toca de coelho.

“Eu ficaria honrada com sua visita na página, e talvez você até pudesse postar uma mensagem no guest book—um ‘olá’ às suas fãs, talvez?”

Ela rasgou um canhoto do próprio talão de cheques, escreveu nele, e entregou a ele. Ele olhou para aquilo sem compreender por um momento, e então colocou-o dentro do bolso do paletó. Linda, enquanto isso, embarcou numa descrição detalhada do web site, para a qual ele não prestou atenção. Os olhos dele viajavam pela área de embarque, mas a garota de olhos verdes havia desaparecido. Não que fosse importante—ela era apenas uma garota, uma fã que o idolatrava e que estava na faculdade. Mas tinha algo diferente nela…

No instante no qual o atendente do saguão anunciou o embarque da primeira classe, um agradecido William interrompeu Linda e se retirou. Ele caminhou rapidamente em direção ao corredor de embarque e entrou no avião, largou-se em seu assento, e fechou seus olhos, suspirando profundamente. Ele poderia dormir até chegar em San Francisco, e ele chegaria novo em folha.

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Cinco horas depois, William tirou seus fones de ouvido e colocou-os no próprio colo. Ele massageou as têmporas, voltando a refletir sobre seu interminável Dia Infernal.

Pela o que seria pelo menos a vigésima vez, ele se perguntava qual teria sido o impulso masoquista que o teria levado a pegar um vôo tão cedo para San Francisco, ao invés de um numa hora mais civilizada. A voz animada de Charles, ecoando em sua cabeça dolorida, era a resposta: “Tente chegar aqui por volta da hora do almoço, pois assim poderemos colocar os assuntos em dia antes que tudo fique uma loucura. Faz tanto tempo que não nos vemos!” Pareceu uma boa idéia no momento em que conversaram.

Mas agora, o almoço era a última coisa na qual William queria pensar. Turbulências constantes nas últimas duas horas intensificaram sua dor de cabeça. Ainda pior, seu estômago, talvez buscando vingança por ter sido acordado tão cedo, havia forjado uma “enjoada” aliança com sua cabeça, executando voltas bem lentas na última hora, fazendo-o sentir-se agradecido por não ter tido tempo para o café-da-manhã.

Ele gemeu quando o avião deu um tranco, mandando a montanha russa em seu sistema digestório de um lado para outro, e depois começando uma enorme queda vertical. O suor umedecia sua pele, sua cabeça latejava, e ele rezava para não ser obrigado a utilizar o saquinho de enjôo que ficava no bolso de seu assento. Ele tocou a campainha, chamando a aeromoça. Ela apareceu instantaneamente, ajeitando o cabelo.

“Sim, Sr. Darcy? No que posso ajudá-lo?”

“Você poderia, por favor, me trazer um copo de água tônica?” Sua mãe usava água tônica para melhorar o estômago.

A aeromoça pareceu desapontada com o pedido dele, mas ela se recuperou rapidamente, colocando um sorriso brilhante em seu rosto. “Claro. Eu voltarei em um instante.”

Ela retornou um minuto depois, chacoalhando a cabeça pesarosamente, como se uma grande tragédia tivesse acontecido. “Eu sinto muito; estamos sem água tônica. Posso lhe servir mais alguma coisa?”

Ele perguntou-se o que mais poderia fazê-lo melhorar; mas recusou-se a revelar sua enfermidade, não queria pedir conselhos a ela. “Não, obrigado. Quando estaremos pousando?”

“Em pouco mais de uma hora.” Ela hesitou e depois acrescentou, “Tem certeza de que não precisa de mais nada? O senhor parece pálido.”

Ele ia responder quando o avião deu outro tranco. A aeromoça segurou num assento; William segurou seu estômago. Sua montanha russa interna entrou numa parte dos trilhos que era só reviravoltas. Fechando os olhos, ele respirou lentamente, profundamente, várias vezes.

Quando ele abriu os olhos, ele viu a aeromoça olhando para ele compadecidamente. “O senhor está bem?” ela perguntou.

“Sim, obrigado, estou bem” ele mentiu, aborrecido com o fato de que sua voz pareceu fraca. Era inapropriado mostrar sinais de fraqueza. Como uma figura pública, ele tinha que proteger sua reputação, pelo bem de sua carreira e pelo nome de sua família.

Roncos ritmados surgiram do assento da janela. William olhou para seu companheiro de assento, com um olhar de raiva, ameaçador, surpreso pelo fato de que um homem tão pequeno pudesse fazer tanto barulho. A “sinfonia” constante tornou até mesmo uma pequena soneca impossível, quanto mais as horas de sono que ele havia planejado.

Ele tentou ouvir música—de fato, ele ouviu trechos de sua versão ganhadora do Grammy do ‘Concerto para Piano de Chopin #1’ enquanto ele passava pelos canais de áudio. Mas até seus amados fones abafadores de som não podiam apagar os roncos sonoros e suspiros vindos de seu vizinho. Ele havia até tentado cutucar o homem para que este acordasse, mas apenas conseguiu provocar roncos ainda mais altos. Resignado a um vôo sem dormir, ele abriu um livro e foi absorvido pela história da campanha militar de Napoleão na Rússia. E então começou a turbulência.

Se ele pudesse se conter até que o avião pousasse, tudo ficaria bem. Ele compraria algo no aeroporto para sua dor de cabeça. Nos últimos tempos ele tinha começado a carregar um vidro de Ibuprofen no bolso de seu paletó, mas ele havia esvaziado-o à caminho do aeroporto naquela manhã. Quando foi a última vez que ele encheu o vidro? Ontem? Antes de ontem?

Ele não se lembrava, mas não fazia diferença. As dores de cabeça estavam sendo causadas, sem dúvida, pelo stress—isto, e pouco sono. Talvez ele pudesse dar uma relaxada no próximo fim-de-semana—não, ele tinha um recital em Boston. E no fim-de-semana seguinte ele estaria de volta à Califórnia, tocando no Hollywood Bowl.

Ele recostou-se e fechou os olhos, ouvindo o barulho chato dos motores e os roncos de seu colega de assento. Um par de olhos verdes e brilhantes dançava em sua mente, e enquanto ele tentava focá-los, finalmente pegou num sono bem leve.

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Elizabeth Bennet estava tendo um dia ótimo.

Estava quente e lotado na classe econômica do vôo 853. Pior ainda, ela estava espremida num assento do meio, perto da parte de trás do avião, entre dois homens muito altos e espaçosos. Mas esse desconforto todo não podia suprimir a ansiedade evidente nos olhos verdes dela. Ela estava à caminho do casamento de Jane, nada mais importava.

O dia dela havia começado cedo—a van que levaria ao aeroporto havia pego-na do lado de fora do apartamento dela muito antes do amanhecer. Mas a excitação dela por causa dos acontecimentos do próximo fim-de-semana a energizaram. Há quase seis meses ela não via sua família. Seguindo a grande tradição das aspirantes a atriz em Nova York, ela mal conseguia se manter, imagine viajar para ver a família.

Um trabalho de meio-período numa faculdade como professora ajudava nas finanças, e ela achou o emprego muito mais recompensador do que servir mesas ou balcões de bares. Mas sua mensalidade na NYU (New York University) absorvia cada centavo extra que ela ganhava, até mais. Ela não podia sequer pensar nos empréstimos estudantis que ela já havia acumulado durante os anos. Mas ela descobriu um grande amor pela profissão de professora, e ela esperava poder trabalhar neste em tempo integral em breve.

Orçamento apertado ou não, perder o casamento de Jane não era uma opção. Elizabeth arrumou um segundo emprego como garçonete para pagar sua passagem de avião. Todas as noites ela se arrastava do restaurante onde trabalhava para casa com os pés doloridos, querendo muito um relaxante banho de banheira. Mas sua tese de Mestrado e o planejamento das aulas chamavam por ela, dizendo “Ei, Lizzy! Lembra-se de nós?” Tarde da noite ela trabalhava, freqüentemente caindo no sono no sofá, cercada por dúzias de papéis.

Amanhã, quando ela estivesse ao lado de Jane na igreja, tudo teria valido a pena.

Jane merecia ser feliz, mais do que qualquer pessoa no planeta. Ela era tudo que Elizabeth imaginava que deveria ser, mas não conseguia—bondosa, gentil, inteligente, e nada egoísta, pensava até demais nos outros. E linda, também. A primeira vez que Elizabeth ouviu a estória infantil “O patinho feio”, ela se identificou com ela imediatamente, comparando-se com sua linda irmã. Não era de se admirar que Jane tivesse encontrado um homem maravilhoso que a adorasse, enquanto Elizabeth já tinha, há muito tempo, desistido de se tornar um cisne.

Ah meu Deus! Chega dessa baboseira de sentir pena de si mesma. Além do mais, quem precisa estar coberta de penas, ou mais provavelmente depenada, diversas vezes por ano? Ela riu suavemente, atraindo um olhar curioso do homem sentado na janela.

Ela tinha uma vida boa, e seria ainda melhor em algumas semanas, quando ela tivesse terminado seu Mestrado e pudesse embarcar de vez em sua carreira de professora. Na segunda-feira ela teve uma entrevista de emprego no Conservatório mais prestigiado na costa Oeste. Voltar para casa para lecionar seria um sonho tornando-se realidade. Ela tinha desenvolvido uma grande afeição por Nova York, mas sentia falta da selvagem e cênica costa do norte da Califórnia, seu estilo de vida mais despojado, e seus invernos amenos. Ela também sentia falta de Jane, que era, além de sua irmã, sua melhor amiga.

O casamento de Jane, uma visita à sua família, e uma possibilidade de lecionar eram todas boas razões para uma alegria violenta. Mas não era só isso. William Darcy estava no avião!

Numa época em que muitas garotas da idade dela babavam por Luke Perry em Beverly Hills 90210 (Barrados no Baile), Elizabeth sonhava com William Darcy. Ela brigava constantemente com Charlotte Lucas, sua colega de quarto de 2º grau, pelo controle do toca-fitas no dormitório delas. Charlotte insistia em tocar Heart Shaped World, de Chris Isaak, incessantemente, enquanto que Elizabeth tocava a gravação de William do ‘Concerto para Piano nº 2 de Rachmaninoff’ sempre que possível.

Durante os anos, a paixão de adolescente havia se transformado numa admiração sincera de seu imenso talento. Ah, claro. Ela riu sonoramente, atraindo outro olhar perplexo de seu colega de assento. É por isso que você quase derreteu quando o viu esta manhã.

Ela manteve uma calma exterior à primeira vista, apesar dos olhos dela terem-se colado nele, recusando-se a deixá-lo. E então … O olhar dele, intenso e questionador, fixou-se nela, e ela não pôde respirar. O momento terminou tão rapidamente quanto havia começado. Ele nem olhou para ela alguns minutos mais tarde, quando ela passou por ele no avião, no caminho dela para seu assento.

Ela balançou a cabeça, bufando. Claro que ele não tinha olhado para ela. Obviamente ela tinha imaginado tudo—ele estava olhando para o nada ausentemente, e não havia notado-a. Ela levantou uma das provas de seus alunos da mesa, pegou sua caneta roxa. Ela devia estar corrigindo provas, não perdendo tempo sonhando acordada. Como se William Darcy pudesse ter o mínimo interesse em você.

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Elizabeth poderia ter saído do avião dançando, excitada, se os lentos passageiros não estivessem impedindo seu caminho. Finalmente ela conseguiu sair do terminal. O vento gelado e espaços amplos eram um deleite depois de ter passado seis horas presa em seu assento como se fosse gado cercado. Melhor ainda, Jane estava ao lado dela, um doce sorriso no rosto dela.

Depois de um “round” inicial de abraços e cumprimentos, Elizabeth deu um passo para trás e inspecionou Jane. “Você parece radiante, como uma noiva deveria parecer.”

“Estou tão feliz, Lizzy. E agora, com você aqui, melhor ainda!”

As irmãs se abraçaram novamente. Então se dirigiram à esteira de bagagem, a pesada mochila de Elizabeth pendurada num dos ombros como o casulo num caracol bêbado.

“Você nunca vai adivinhar quem estava no vôo!”

“Quem?”

Elizabeth deu um pulinho, quase derrubando a mochila. Ela se aprumou numa posição mais segura. “William Darcy! Eu o vi no portão de embarque no JFK, posando para uma foto com uma fã.”

O aceno pensativo de Jane não foi a reação que Elizabeth esperava. “Eu achei que fosse ele. Ele foi um dos primeiros a sair do avião.”

“Bem, claro. Obviamente ele não voa de classe econômica.”

“Eu queria ter ficado sabendo antes de que ele estaria no seu vôo.”

Elizabeth torceu o nariz. “Por que você se importaria com os planos de viagem de William Darcy?”

“Eu decidi não te dar essa notícia antes e te fazer uma surpresa, Lizzy. William vai ser o padrinho de Charles.”

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Os passageiros lotavam o espaço perto da esteira de bagagem, todos ansiosos por encontrar suas malas. Elizabeth e Jane ficaram paradas num canto, absorvidas pela conversa.

“Não posso acreditar que você está se casando com um homem cujo melhor amigo é William Darcy!”

Jane acenou afirmativamente, um sorriso maroto nos lábios. “Não sei porque, mas tive um palpite de que você ficaria impressionada.”

“E você tem certeza que é o William Darcy?”

“Claro que tenho,” Jane disse, sorrindo abertamente. “Eu já ouvi você falando dele o suficiente, você até mesmo me arrastou para ver um concerto dele uma vez! Ou foram duas?”

“Bom, não há nada que eu possa fazer. Ele é um músico extraordinário.”

“E não faz mal nenhum que ele seja lindo também.” Jane ergueu as sobrancelhas.

“Estou agindo como uma idiota, não estou?”

“Um pouquinho. Mas você pode.”

“Bom, porque eu não acho que vou conseguir parar.” Elizabeth agarrou o braço de Jane. “Como Charles o conheceu? Você tem que me contar tudo.”

“Eles se conheceram em Nova York, na Juilliard.”

“Charles se formou na Juilliard?” As sobrancelhas de Elizabeth se ergueram. “Você não me contou isso.”

“Ele saiu depois de dois anos e formou-se em Administração na Southern Cal. Ele queria ser um músico profissional, mas o pai dele—bom, eu conto essa parte depois. De qualquer maneira, quando Charles entrou na Juilliard, William já estava lá.”

“Que instrumento Charles toca?”

“Ele toca mais o saxofone. Enquanto ele estava em Nova York ele começou com um grupo de jazz.”

Elizabeth balançou a cabeça. “Aposto que William era o pianista.”

“Isso mesmo! Charles disse que os professores de William não gostavam de vê-lo ‘desperdiçando’ o tempo dele com jazz quando ele estava estudando para uma carreira de músico clássico, mas William amava jazz tanto quanto Charles. Foi assim que eles ficaram amigos.”

“Os ‘bis’ de William em concertos são normalmente solos de jazz para piano. É uma das marcas registradas dele.”

“De qualquer maneira,” Jane continuou, “ele e Charles não têm se visto muito nestes últimos anos, mas eles continuaram em contato. Tivemos sorte dele poder estar aqui tão em cima da hora.”

“E ele não te disse quando chegaria na cidade?”

“Ele apenas disse que estaria aqui a tempo para almoçar com Charles, e que ele já tinha tomado todas as providências para quando chegasse. Uma pena, poderíamos dar uma carona a ele.”

Elizabeth riu nervosamente ao pensar no celebrado pianista, herdeiro da fortuna da família Darcy, enfiado no banco de trás do velho Honda Civic de Jane. “Ah, por favor. Ele provavelmente nunca andou em nada menor do que uma limousine na vida dele.”

“Suponho que você esteja certa. Mas eu queria que ele soubesse o quanto somos gratos por ele estar aqui, por nós.”

Elizabeth ainda não acreditava nas notícias. “Então eu vou caminhar até o altar de braços dados com William Darcy, e vou dançar com ele na recepção.”

“Essa é a idéia geral.” Jane sorriu. “Então, presumo que você tenha gostado da minha surpresa?”

Elizabeth jogou seus braços em volta de Jane. “Você é minha irmã mais velha favorita, a mais favorita do mundo!”

“Sou sua única irmã mais velha,” Jane disse. “Agora, Lizzy, você não vai se comportar desta maneira quando o conhecer, vai? Eu esperaria essa reação de Kitty ou Lydia se elas encontrassem um de seus ídolos, mas conto com você para se segurar, certo?”

Elizabeth olhou para Jane amuada. “Como é? Você está me comparando com Kitty e Lydia? Isso machuca.”

“Lizzy, por favor, fale sério.”

“Prometo que serei calma, sofisticada, o cúmulo da discrição, como você.”

Jane cutucou-a. “Olhe, ali está ele.”

Elizabeth respirou rapidamente, perguntando-se se seria capaz de manter a promessa que acabara de fazer.

Quando ela viu William no JFK, Elizabeth tentou não ficar olhando–o fixamente, mas agora ela estava hipnotizada. Ele estava parado sozinho, apoiado num pilar, os braços dele cruzados sobre o peito. O cabelo dele, escuro e ondulado, estava atraentemente despenteado, fazendo com que os dedos de Elizabeth formigassem, querendo ajeitá-los. Os olhos dele estavam fechados, a face dele imóvel—um retrato vivo da beleza clássica masculina.

Enquanto ela o olhava, numa fascinação incontrolável, ele abriu os olhos e olhou atentamente para a multidão, quase como se sentisse a análise dela. Os olhos dele encontraram-se com os dela pela segunda vez aquele dia, e a respiração dela parou. Mais uma vez, ela sentiu o calor do olhar penetrante dele. Era como se ele acabasse com as defesas dela, e encontrasse a alma dela, gêmea da sua. Ela forçou-se a afastar seus olhos dos dele, concentrando toda a energia dela em controlar seus membros trêmulos.

“Com certeza ele é lindo, quanto a isso não há dúvida,” Jane disse.

Elizabeth concordou com um aceno, a garganta seca demais para falar. A palavra “lindo” não era suficiente para descrevê-lo. Mesmo do outro lado do recinto, ele irradiava um magnetismo que a arrepiava. Mas além de seus dotes superficiais—os quais, ela pôde ver, atrairam a atenção de muitas outras mulheres—ela sentiu algo mais. Vulnerabilidade. Sim, era isso mesmo—vulnerabilidade, embaixo de seu exterior. Ela rolou os olhos. Claro, Lizzy, você é tão boa em entender o que os homens pensam… Deixe a leitura de mentes para alguém mais competente.

A esteira de bagagem gritou como se viva, e malas começaram a marchar, passando pelos passageiros que esperavam. Elizabeth lutou para atravessar a multidão em volta da esteira e pegou sua mala.

“Antes de irmos quero me apresentar à ele,” Jane disse. “Se ele souber mais tarde que estávamos aqui e que ao nem ao menos o cumprimentamos, ele vai achar que fomos rudes. Além disso, quero ter certeza de que ele tem como chegar na cidade.”

“Ah não, não vamos incomodá-lo.” O estômago de Elizabeth apertou-se. “Provavelmente ele está muito cansado depois do vôo.”

Jane tocou seu braço levemente. “Venha comigo; vai dar tudo certo. Estou me casando com o melhor amigo dele, afinal de contas.”

Elizabeth abriu sua boca para protestar novamente—ela não queria ir para lugar nenhum perto dele tão cedo, depois de ter sido pega ‘secando-o’—mas Jane já havia começado a se mover na direção dele. Elizabeth, o progresso dela impedido pela mala, lutava para manter o passo. William tirou uma mala da esteira e deixou-a cair ao seu lado, de costas para Jane.

“Com licença, Sr. Darcy?” Jane chamou.

À princípio ele não reagiu. Finalmente ele se virou, lentamente, olhando fixamente para ela. Os mesmos olhos que queimaram os de Elizabeth alguns minutos atrás estavam agora frios e perdidos. A voz dele disparava frieza quando ele disse, “Me perdoe, mas eu não posso dar autógrafos agora. Por favor, me desculpe.”

Ele pegou a mala e acelerou o passo, deixando Jane de boca aberta. Elizabeth assistiu a cena, com raiva, enquanto se sentava numa cadeira não muito distante.

“Mas que petulância, hein!” Elizabeth exclamou. “Acho que talento e boas maneiras não tem nada a ver um com o outro.”

O rosto de Jane estava pálido e o lábio superior dela tremia. “Não, Lizzy, a culpa foi minha. Você estava certa—eu não devia tê-lo abordado num lugar público.”

“Por que você tem sempre que perdoar tudo?” A indignação de Elizabeth se acumulava, e ela recusou-se em deixar Jane acalmá-la. “Ok, então ele é lindo e tem talento. Mas não há desculpas para ele tê-la dispensado antes dele ao menos saber o que você queria. Como ele se atreve a assumir que você fosse uma fã oferecida?”

Ela olhou de relance para William, que estava sentado à distância com um olhar de intensa concentração em seu rosto. “E mesmo que você quisesse um autógrafo, e daí? Ele não podia gastar alguns segundos da importantíssima tarefa dele de se sentar naquela cadeira e parecer todo imperioso e desafiador? Quero dizer, não é como se ele fosse um cantor de rock ou uma estrela de cinema que está sempre cercado de fãs onde quer que ele vá.”

“Mas Lizzy, pode ser que isso aconteça com mais freqüência do que você pensa. Você não falou que alguém pediu para tirar uma foto com ele nessa manhã mesmo?”

“Isso não lhe dá o direito de tratá-la dessa maneira. Espere até ele ficar sabendo do quanto foi rude com a noiva de seu melhor amigo!” Do canto de seu olho, Elizabeth viu William se erguer lentamente da cadeira e voltar-se para a saída.

“Lizzy, por favor, seja legal. Pode ser que ele não nos reconheça mais tarde—eu duvido que ele tenha nos olhado tão de perto. Então, não vamos dizer algo a menos que ele diga. Eu não gostaria de deixá-lo embaraçado.”

“Ah, está bem.” O homem merecia ouvir poucas e boas dela, e ele ouviria, apesar da promessa que ela havia acabado de fazer.

“Vamos, vamos almoçar. Onde você gostaria de ir?”

Elizabeth não respondeu, distraída pela visão de William caminhando na frente delas e atravessando as portas automáticas. Ela olhou para Jane and murmurou, “Ninguém que seja assim tão idiota deveria ser permitido parecer tão fantástico numa calça jeans.”

Elizabeth and Jane caíram na risada quando sairam do aeroporto e foram em direção ao carro de Jane.

 

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