Uma Canção Inesperada

Capítulo 2

 

BMW Z3 “Cinqüenta milhas por hora na via expressa,” William resmungou, franzindo a cara, olhando para o velocímetro de seu carro alugado. “Que desperdício com um carro tão bom.” Ele meio que esperava que o motor da BMW Z3 vermelho brilhante esportiva gemesse em protesto—ou por estar com vergonha de ser visto por outros carros esporte passando a toda velocidade nas faixas da esquerda. Ele deu um tapinha carinhoso no painel do carro, compadecido. “Desculpe, mas isso é o melhor que eu posso fazer.” Ainda passado, em conseqüência da tontura que sentiu no aeroporto, ele não queria arriscar ir mais rápido.

Raramente ele dirigia. Em casa, em Nova York, a família Darcy mantinha um motorista na equipe de serviçais da casa, e as viagens de William para apresentar-se usualmente o levavam para grandes cidades, nas quais era bem melhor andar com uma limusine alugada. Mas a palavra “Califórnia” passou-lhe a irresistível imagem de um conversível voando baixo numa via ensolarada, o cabelo do motorista bagunçado pelo vento. Richard merecia o crédito—ou a culpa—por essa associação.

BMW Z3 William era um garoto tímido e superprotegido, de apenas nove anos, quando sua tia e seu tio, os Fitzwilliams, se mudaram de São Francisco para Nova York com o filho. A atitude arrogante e mundana de Richard havia deixado o primo deslumbrado. William havia gostado principalmente das histórias de Richard da vida na Califórnia, muitas das quais envolviam passeios escondidos em carros velozes. As estórias eram provavelmente inventadas— Richard tinha apenas treze anos, era jovem demais para dirigir—mas quando William finalmente se deu conta dessa verdade, a vontade dele de cruzar a Califórnia num carrão já estava entranhada nele.

Alguns podiam achar bobeira dar vazão a um capricho tão frívolo—a avó dele encabeçava a lista. Mas ele havia decidido há muito tempo que todos tinham direito a um vício inofensivo, e o dele era a paixão por carros velozes. Agora, a secretária dele conhecia os proprietários de todas as agências de aluguel de carros “exóticos”, de San Diego a São Francisco.

Se ele soubesse que não poderia usar inteiramente o motor que roncava sob o capô, ele teria pedido a Sonya para arrumar uma limusine no lugar. Mas o fim-de-semana havia apenas começado, e ele já se sentia melhor. Ar fresco e o brilho do sol, e um pouco de descanso-é tudo o que preciso.

Há meia hora atrás ele não estava tão otimista. Quando ele se abaixou na esteira de bagagem para pegar sua mala, o mundo se transformou em uma quase que completa escuridão. Ele precisou de cada grama de concentração para continuar de pé enquanto ele buscava, desesperado, por um lugar para se sentar e descansar. Numa estonteante demonstração da Lei de Murphy, uma fã escolheu aquele exato momento para se aproximar dele.

Ele sabia que havia sido curto e grosso com ela, mas ele não pôde evitar. Seria impensável que ele confessasse a própria fraqueza dizendo, “Me perdoe, mas se eu não me sentar provavelmente eu vou cair feito um saco de batatas na sua frente.” Além do mais, o que é isso, “Dia de assediar William Darcy? Ele mal havia se recuperado de seu encontro com Linda, a Webmistress, e seu esposo com problemas para fotografar.

E eles não foram os únicos a reconhecê-lo—a garota de olhos verdes também o reconheceu. Durante sua batalha para reconquistar seu equilíbrio, aqueles olhos dispararam com raiva na direção dele, o prévio bom-humor deles substituído por um frio desprezo. Ela é uma estranha que vi no aeroporto, nada mais. E ela não tinha o direito de me julgar. Além do mais, por que eu deveria me importar com a opinião dela? Uma perspectiva lógica, certamente, mas o problema é que ele descobriu que ele estava incomodado com aquilo.

Ele deu de ombros. O infeliz incidente estava acabado e ele nunca mais a veria. Ele conduziu o Z3 pela Interestadual 80 e pisou no acelerador. O carro acelerou como um cavalo puro-sangue que dispara em direção à linha de chegada, e pela primeira vez naquele dia ele começou a relaxar.

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Terrace restaurant William chegou no restaurante do terraço do Ritz-Carlton precisamente à uma hora. Ele se sentiu como se personificando a expressão “um novo homem.” Uma curta soneca, um banho, e uma troca de roupas levaram embora as últimas reminiscências de suas tribulações. Até mesmo a mancha de café se foi, banida para dentro de um saco de lavanderia.

O maitre levou-o a uma mesa num canto, na sombra de algumas árvores. Ele esticou suas longas pernas e se alternou entre ler atentamente o menu e observar despreocupadamente a fonte no centro do terraço. O som gentil da água caindo e se espalhando cobriu o som abafado das vozes das mesas mais próximas.

Alguns minutos depois ele sentou-se, bebericando um copo de chá gelado e devorando uma pequena porção de pãezinhos recém assados. Ele deu uma olhada no relógio, e então viu Charles Bingley, caminhando animado pelo terraço, um largo sorriso no rosto.

“Will! Nossa, é tão bom ver você!”

“Olá, Charles.”

Charles ignorou a mão estendida de William e, ao invés de dar a mão para ele, envolveu-o num abraço de urso. William aprumou-se e tentou bater nas costas de Charles.

“Desculpe-me pelo atraso,” Charles disse enquanto se sentavam. “Eu tentei realmente chegar à tempo. Mas—”

“Eu sei.” William sorriu abertamente. “Quando se está fazendo milhares de coisas ao mesmo tempo, fica difícil chegar na hora certa para qualquer uma delas. Eu não esperava que você chegasse antes das 13h15, então, por isso, você chegou na hora certa.”

“Ok, Sr. Ser-Pontual-é-quase-ser-uma-Divindade.”

O garçom chegou para anotar os pedidos. Uma vez que ele recolheu os menus e partiu, Charles perguntou, “Como foi a viagem?”

“Um desastre depois de outro.”

“O que aconteceu?”

William passou pelos acontecimentos do dia mentalmente e então respondeu, “A maior parte das coisas nem vale à pena mencionar.Mas eu cruzei com três fãs.”

“Ah, a vida de um sex-symbol da música clássica.”

“Isso de novo? Ah não.”

“Negue o quanto quiser,” Charles disse, um sorriso falso no rosto. “Mas você sabe que é verdade, e não só porque a revista Newsweek te chamou assim. Mulheres que não sabem soletrar a palavra ‘concerto’ te olham uma vez, e de repente se tornam grandes amantes da música clássica. Elas compram todos os seus CDs e enchem o saco de seus maridos e namorados para levá-las nos seus concertos. E então elas ficam do lado de fora do seu camarim depois do concerto, esperando conhecer o Homem em Pessoa.”

“Você é tão idiota.” Mas Charles não estava longe da verdade. Uma admiração tão superficial não se comparava com a apreciação de um verdadeiro aficcionado em música clássica. Mas, assim como Richard adorava apontar, orquestras sinfônicas não faziam essa distinção quando as participações especiais de William como convidado atraíam multidões e platéias completamente lotadas. Tudo bem. Vou deixar o Richard lidar com a Linda, a Webmistress.

Charles deu uma risadinha. “Você acha que eu sou idiota? E é por isso que você foi atacado por fãs essa manhã? Vamos lá, quero ouvir os detalhes picantes. Nossa, tenho tanto ciúmes de tudo isso que chega a ser patético.”

“Não tenha. Uma era uma mulher velha o suficiente para ser minha mãe, que não conseguia para de falar sobre computadores. Ela queria uma foto para o meu web site.”

“Você tem um web site?”

William deu de ombros. “Evidentemente. Ela afirmou ser minha Webmistress, imagem essa que conjurou outras bem alarmantes.”

“Meu amigo tecnofóbico,” Charles disse, rindo. “O único cara que eu conheço que não tem um endereço de e-mail.”

“Ah, eu tenho sim.” William contou essa novidade com um sorriso presunçoso.

“Desde quando?”

“Tenho um há alguns anos. Mas quase nunca o dou a ninguém.”

“Agora é que vem o verdadeiro teste. Com que freqüência você checa seu e-mail?” Charles perguntou, levantando uma sobrancelha.

“Isso é responsabilidade da Sonya.”

“Por que é que eu não estou surpreso? Mas, enfim, voltando à Webmistress. Você disse que ela queria uma foto sua.”

“Sim. E lá estava eu, dormindo acordado, com manchas de café na minha camisa novinha em folha.”

Charles riu gostosamente. “Você e essa obsessão com seu guarda-roupa! Se você não tomar cuidado, as pessoas vão começar a dar as direções para você chegar ao The Castro.”*

“Muito engraçado.” William fingiu estar consternado, apenas para agradar a Charles. Depois de quase 15 anos de amizade, ele estava acostumado com a natureza do amigo de provocá-lo para irritá-lo.

“Eu estou só dizendo o seguinte: Cara bonitão, que nunca se casou, tipo artístico, impecavelmente bem-vestido… apesar de que eu tenho que admitir que não consigo vê-lo num bar de fetiches, todo vestido em couro ou látex.” Um sorriso malicioso estava na cara de Charles. “De qualquer maneira, esfrie seu caso de amor com sua camisa nova enquanto você estiver na cidade, ok? Ou você vai atrair um tipo diferente de admiradores.”

William deu uma risada, olhando a camisa cáqui amassada de Charles. “Só porque eu ainda não aperfeiçoei o visual de rato de praia da Califórnia—”

“Nem vem. As mulheres acham irresistível. O que me faz voltar no assunto, suas fãs que te adoram. Não me deixe no suspense—vamos ouvir sobre as outras duas.”

William fez uma careta. “Quando eu estava saindo do aeroporto, uma mulher queria um autógrafo. Eu a dispensei, e suponho ter sido meio grosseiro.”

“Como ela era?”

“Era uma loira bonita. Por que você está perguntando isso?”

“Uau. Tantas mulheres para escolher, você pode se dar ao luxo de dar um fora em loiras bonitas. Nada mau.”

“Olha, Charles—”

“E quanto à número três? O que ela fez?”

“Nada de especial.” William ficou subitamente interessado nos próprios sapatos.

“Aha! E você marcou um encontro com a Srta. ‘Nada de Especial’ para sábado à noite, depois do casamento?”

“Claro que não. Eu não me envolvo romanticamente com fãs. Você sabe disso.”

Charles rolou os olhos. “Sim, eu sei disso. Todo mundo sabe disso. Que diabos, até nosso garçom deve saber disso. Elas te seguem por todo lugar, e você não consegue correr delas rápido o suficiente. Acho que você é maluco.”

“Sinto desapontá-lo em suas fantasias, mas eu não sou perseguido por fãs tão constantemente assim. Isso deve acontecer com rock stars, mas não com alguém como eu. Quando alguém se aproxima de mim, normalmente é para um autógrafo ou uma foto.”

“Que nada. Aposto que você conhece um monte de fãs que querem algo mais pessoal do que um autógrafo.”

“‘Um monte’ é uma palavra muito forte.” William observava um pequeno pássaro cinza que voava em direção a ele, bicando migalhas de pão que caiam de uma mesa próxima a eles.

“Bom, existe uma ‘não-negação’ aí, se é que eu já ouvi algo assim.” Charles inclinou-se sobre a mesa. “Vamos lá, me joga um osso. Você não sabe que eu vivo indiretamente através de você?”

“Tirar vantagens de minhas fãs seria algo indigno. E nada cavalheiro.”

“Eu sei,” Charles disse com um sorriso indulgente. “Só estou te enchendo. Mas não te deixa maluco saber que você poderia ter uma mulher diferente a cada noite se você quisesse?”

“Se eu quisesse. Mas eu não quero. Você tem que entender isso—afinal, é você que vai se casar.”

O rosto de Charles suavizou-se. “Sim, há muito para se dizer sobre um amor de verdade.”

“Fale-me sobre ela.”

“Jane é a mulher mais linda que eu já vi.”

William sorriu. Ele já tinha ouvido isso de Charles anteriormente, sobre muitas outras mulheres. “Claro que ela é.”

“Não, dessa vez é sério. Alta, magra, loira, olhos azuis. Uma verdadeira garota da Califórnia.”

“Vocês dois devem parecer a Barbie e o Ken.”

Charles sorriu abertamente. “Você não é o primeiro a dizer isso.”

“O que ela faz?”

“Ela é advogada. Mas esqueça todos os estereótipos—porque eles não tem nada a ver com ela. Ela é bondosa, gentil e sincera. E temos muito em comum. Gostamos de correr em maratonas e de jogar tênis, e eu vou ensiná-la a surfar na lua-de-mel.”

“Ela parece ser maravilhosa,” William respondeu educadamente. “Como se conheceram?”

“Numa corrida de 10.000m, no começo de Fevereiro. Estamos juntos desde então.”

“Então, vocês não se conhecem há muito tempo. Foi o que pareceu mesmo quando nos falamos pelo telefone, mas você estava tão alegre, que não fazia coerência nenhuma.”

“Foi amor à primeira vista. Eu sabia que era ela a mulher certa para mim.”

William franziu o cenho. Charles parecia feliz, mas sua impulsividade freqüentemente o levava ao desastre. “Ela trabalha para uma firma grande?”

“Ela tem seu próprio escritório. Claro que ela vai ter que fechá-lo mais cedo ou mais tarde, quando nos mudarmos para Los Angeles.”

“Vocês vão voltar para lá?”

“Não nesse exato momento. Jane gosta realmente de São Francisco—diabos, eu também.”

“Por que ir para lá, então?”

“Meu pai insiste. Ele queria que nos mudássemos logo depois da lua-de-mel, mas eu o convenci a nos dar seis meses.” Charles alegrou-se, e continuou. “Eu entendi que devia atrasar a mudança por poucos meses de cada vez, e assim teríamos como ficar por algum tempo.”

“Jane se dá bem com seus pais?”

Charles hesitou. “Eles só se encontraram uma vez—quando fomos passar um fim-de-semana lá, em Abril. Mas tenho certeza que eles vão adorá-la quando puderem conhecê-la melhor.”

Em outras palavras, não. “E quanto à família dela?”

“Eles moram em Cupertino. O pai dela é engenheiro—trabalha para uma empresa de computadores. A mãe dela é … vamos dizer que ela é muito afetuosa. É uma família grande—Jane é a mais velha de cinco irmãs.”

“Assumo que não tenham dinheiro.”

Charles chacoalhou a cabeça. “Não estou dizendo que sejam pobres. Classe média, eu acho. Não me importo com isso.”

“Mas seus pais se importam.”

“Sim,” Charles disse, suspirando. “Meu pai insiste que Jane está comigo pelo meu dinheiro.”

“Existe essa possibilidade?”

“Claro que não! Jane me ama. Por que ninguém acredita nisso?”

“Tenho certeza de que ela o ama. Mas não posso evitar de lembrar-me de algumas das garotas que corriam atrás de você—e que quase o pegaram—quando estávamos na Juilliard.”

“Ok, ok,” Charles disse. “Então eu acreditava muito nas pessoas antes. Mas espera aí, isso foi há anos!”

“Também estou pensando nas minhas próprias experiências, as mais recentes. Nunca desisti de encontrar uma mulher que se interessasse por mim e visse em mim algo além do meu nome e do meu balanço bancário.”

“Como eu disse a você, Jane tem seu próprio escritório. Não é como se ela estivesse esperando por um marido rico aparecer.”

William sorriu diante da inocência do amigo. “Quase qualquer mulher acharia o dinheiro de sua família tentador. Mesmo que a maioria das mulheres do círculo social de minha família tenha dinheiro, elas sempre querem mais.”

“Bem, Jane não é do ‘círculo social’ da minha família, como você chama. É por isso que meu pai não está satisfeito. Ele vem tentando me empurrar filhas de sócios dele nos negócios há anos.”

William acenou, compadecido. Ele estava recebendo o mesmo tipo de pressão por parte de sua avó.

“Meu pai está obcecado pela idéia de que Jane seja uma ‘caçadora de fortunas’”, Charles continuou, “que ele quer até que ela assine um acordo pré-nupcial.”

“Isso me parece sensato.”

Charles olhou fixamente para William. “Você deve estar brincando comigo. Você quer que eu peça isso à mulher que eu amo, que comece a planejar o divórcio sem ao menos ter me casado com ela?”

“Mas observe as estatísticas de casamentos que não dão certo.”

“Jane e eu não somos uma estatística, somos duas pessoas apaixonadas. Eu não quero nem mesmo sugerir à ela que eu ache que não vai durar.”

“Então, ela não assinou o acordo?”

“Não.”

“Estou surpreso que seu pai tenha desistido do pré-nupcial.”

“Ele não desistiu,” Charles murmurou, num tom conspiratório, inclinando-se para frente.

William sentou-se ereto em sua cadeira. “Não estou entendendo.”

“Ele me entregou um acordo, e me pediu para que eu fizesse Jane o assinar. Nosso advogado em Los Angeles pensa que o advogado de São Francisco está com a cópia assinada, e vice versa. Quando meu pai descobrir, o casamento já estará consumado e será tarde demais.”

“Mas, Charles, você não pode fazer isso.”

Charles levantou seu queixo, num tom de desafio. “Sim, eu posso.”

“Mas há um negócio de família em risco aqui. Seus pais e suas irmãs poderão ser afetados se seu casamento não der certo.”

“Não vai acontecer isso.” Charles sentou-se novamente, cruzando seus braços sobre o peito. “E eu não quero mais falar sobre isso.”

O almoço deles chegou, e eles comeram em silêncio. William mal experimentou a comida, a mente dele cheia de preocupação por causa do amigo. Ele apreciava a natureza alegre e irresponsável de Charles, embora fosse completamente diferente de sua própria natureza, a qual ele nunca sentiu vontade de mudar. Mas, algumas vezes, parecia que Charles não havia crescido. Ele se apaixonava facilmente e imprudentemente, e parecia ter seu coração despedaçado com uma regularidade previsível. Além do mais, a decepção com relação ao acordo pré-nupcial era uma irresponsabilidade. O Sr. Bingley ficaria furioso quando soubesse de tudo.

Charles finalmente quebrou o opressivo silêncio, começando um tópico de conversa mais seguro. “Que tipo de carro você alugou?”

“Uma Z3.” William engoliu um pedaço de seu peixe.

“Boa escolha. Mas Jane não ficou muito feliz por não irmos encontrá-lo no aeroporto. Ela está preocupada, quer ser uma boa anfitriã.”

“Você explicou a ela sobre o carro?”

“Não, acho que ela não entenderia nosso tesão por carros esportivos.”

William deu um riso abafado. “Bem colocado.”

“Ela também não ficou nada feliz com o fato de você ficar aqui no Ritz ao invés de ficar em casa comigo. Mas eu disse à ela o quanto seria conveniente, com a recepção e o jantar de ensaio sendo aqui também.”

“Espero que não se importe. Me pareceu melhor, com sua família também instalada na sua casa.”

“Em outras palavras, você não quer ser forçado a ficar tão próximo de Caroline, a apenas alguns cômodos de distância. Foi uma escolha sábia.”

“Sinto muito, Charles.”

“Não sinta. Eu é que deveria me desculpar, por ter uma irmã tão insistente.”

“Não há nada que você possa fazer. Mas agradeço por me entender.”

“E isso é péssimo, porque na verdade temos lugar suficiente para todos na casa. Meus pais decidiram ficar aqui no hotel de última hora. Caroline não sabe que estaremos apenas eu e ela na casa.”

“Você não contou a ela?”

“Diabos, não.” Os olhos de Charles brilhavam, travessos. “Nem quero ver a reação dela quando ela ficar sabendo que você escapou dela.”

William sorriu. “Você é um bom homem. Obrigado.”

O garçom retornou, levando os pratos embora. Os dois recusaram a sobremesa e o café. William, sob os protestos de Charles, colocou a conta do almoço em sua despesa.

“Tem planos para essa tarde?” Charles perguntou.

“Não. O que você tem em mente?”

“Venha até minha casa. Jane foi encontrar a irmã no aeroporto. Ela disse que elas provavelmente sairiam para almoçar e talvez fazer umas compras, então teremos o lugar todo para nós. Tenho minha cerveja favorita na geladeira—Anchor Steam, de fabricação local. Sei que você é um esnobe que só toma vinho, mas acredite em mim, você vai amar. Podemos sentar no pátio e relaxar. A calmaria antes da tempestade.”

“Parece ótimo. E voltaremos aqui depois, para o jantar de ensaio, então por que você não deixa o seu carro aqui e pega o meu?”

Charles deu um largo sorriso. “Você quer colocar a Z3 para funcionar corretamente, hã? Neste caso, vamos pegar o caminho mais longo até a casa.”

William sorriu enquanto ele mostrava o caminho para fora do restaurante. Morra de inveja, Richard. Você pode ter inventado as estórias, mas eu é que vou experimentar a coisa de verdade.

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“Que dia lindo!”

Elizabeth deitou-se de costas, apoiada em seus cotovelos, e observou a cena na frente dela. O clima—céu azul, e o sol brilhando na tarde de Maio—combinavam perfeitamente com seu humor, assim como com o lugar no qual ela e Jane escolheram para o piquenique de última hora.

Palace of Fine Arts O Palácio de Belas Artes era um dos locais favoritos de Elizabeth em São Francisco. Localizado nos arredores chiques do distrito da Marina, era tudo o que restava da Exposição Pan-Pacific de 1915. O prédio, com design que lembrava ruínas Romanas, era composto de uma construção abobadada no centro, com arcos e colunas. Ao contrário de seu nome, não é um museu de arte. Ao invés disso, abriga o Exploratorium, um centro único de ciência.

Palace of Fine Arts Quando criança, Elizabeth amava visitar os jardins do Palácio para alimentar os patos e cisnes que nadavam na lagoa, e procurar tartarugas, que tomavam sol nas suas margens em dias agradáveis. Hoje, ela e Jane reclinavam no gramado ligeiramente inclinado, olhando a lagoa, os restos de um almoço de sanduíches de uma delicatessen entre as duas.

“O clima está realmente perfeito,” Jane disse. “E os jardins daqui são tão lindos. Não consigo me lembrar quando estive aqui pela última vez.”

“Você não dá importância a este lugar porque sempre morou perto daqui.”

Jane balançou a cabeça. “Amo este lugar, por isso nunca quis sair daqui. E, sorte minha, Charles também ama.”

“Quanto tempo faz que ele mora por aqui?”

“Cerca de dois anos. Os pais dele querem que nos mudemos para Los Angeles, mas nós queremos ficar aqui, por isso concordamos em ficar.”

“Bem, é claro que querem ficar aqui! Primeiro: você tem seu escritório.”

“Isso mesmo. Odiaria ter que desistir de tudo agora, quando finalmente estou começando a sentir que está indo bem.” Jane silenciou-se, olhando fixamente para suas unhas impecavelmente feitas.

“Há algo errado?”

“Na verdade, Lizzy, preciso de seus conselhos sobre umas coisas. Quase mencionei isso por telefone, mas decidi que estava dando muita importância a algo que não é importante.”

Elizabeth notou a expressão ansiosa da irmã. “O que é?”

Jane hesitou. “Ah, pensando bem, não é nada. Esquece.” Ela ficou de pé, começou a passar as mãos na calça, tirando as folhinhas de grama que estavam grudadas nela. “Vamos dar o pão que sobrou para os patos comerem.”

“Sente-se agora mesmo e me diga o que está acontecendo de errado. Deve ser importante, ou você não teria tocado no assunto.”

Jane se sentou perto de Elizabeth e suspirou, fechando os olhos. “Ok, mas lembre-se, isto provavelmente é um chilique pré-casamento, só isso.”

“Pare de enrolar e comece a falar.”

“Eu te contei sobre minha ida com Charles a Los Angeles, para conhecer os pais dele.”

“Você disse que foi, mas nunca me contou realmente nada sobre isso.”

“Foi …” Jane balançou a cabeça e suspirou novamente. “Charles estava diferente naquele fim-de-semana.”

“Diferente como?”

“Normalmente ele parece confiante e feliz, e eu amo isso nele. Mas naquele fim-de-semana na casa dos pais dele ele pareceu—fraco, de alguma maneira.”

“Me dá um exemplo.”

“Bom, tem essa coisa toda sobre onde vamos morar. Charles e eu tínhamos acabado de comprar nossa casa quando fomos ver os pais dele. A idéia era escolher uma casa na qual poderíamos criar uma família.”

Elizabeth concordou com um aceno, os olhos dela fixos em Jane.

“Mas naquele fim-de-semana, o pai dele começou a falar como se fossemos morar em Los Angeles depois do casamento. Charles não disse nada para corrigí-lo. Então, eu finalmente falei. Eu contei ao Sr. Bingley sobre a casa, sobre meu escritório e nossos planos.”

“O que aconteceu, então?”

“O Sr. Bingley ficou meio chateado.”

“Meio chateado?” Elizabeth sentou-se, as costas retas. Jane sempre tentava tornar amenas as coisas mais desagradáveis. O Sr. Bingley povavelmente deu um chilique completo, com gritos e gesticulação exagerada.

“Ele insistiu em que mudássemos para Los Angeles depois do casamento. E ele me disse que eu teria que parar de trabalhar mesmo, porque, como mulher de Charles, eu teria outras responsabilidades.”

“Ele simplesmente começou a te dar ordens, mesmo que tenham acabado de se conhecer?” Elizabeth olhava para Jane, incrédula.

“O que pareceu chateá-lo mais foi que Charles ainda não tinha acertado essas coisas comigo.”

“Então, o Charles já havia conversado com o pai dele sobre isso, mas não te contou. Que legal, né?”

“É o que pareceu, mas pode ser que eu tenha entendido mal.”

Elizabeth franziu os lábios. “Bem, o que o Charles disse?”

“Esse é o grande problema. Ele não disse nada—ele só olhou para o pai dele, e então para mim, e gaguejou um pouco.”

“Você está brincando.”

“Não, não estou. Mais tarde, ele conversou com o pai privadamente e resolveu tudo. Mas na hora ele só ficou lá, sentado, olhando, parecendo—bem, submisso e nervoso.”

“Eu não acredito que ele não ficou do seu lado. Pelo menos as coisas se acalmaram um pouco depois de tudo isso?”

“Na verdade, não. O Sr. Bingley começou a fazer perguntas sobre a nossa família. Quanto papai ganha, o que mamãe fazia antes de conhecer papai, quanto valia nossa casa, e—de qualquer maneira, achei as perguntas um tanto …” Jane parou de falar.

“Intrometidas? Rudes? Muito desagradáveis?” Elizabeth falou tudo de uma vez.

“Bem, Lizzy, eles tem que ser cuidadosos. O pai dele disse que as mulheres perseguem Charles com freqüência por causa de sua fortuna.”

“Ele disse isso? Então ele basicamente te chamou de interesseira!”

“Tenho certeza de que ele não quis dizer isso, mas na hora foi muito embaraçoso.”

O estômago de Elizabeth agitou-se violentamente. “Charles a defendeu, claro.”

Jane suspirou e sacudiu a cabeça. “Me pareceu que ele queria fazer isso, mas ele só ficou lá, sentado.”

“Então, em outras palavras, ele morre de medo do próprio pai.”

“Eu não diria que ele morre de medo. Mas que ele parece um pouco intimidado por ele. Na verdade, Lizzy, o Charles é um homem maravilhoso. Ele é tudo o que eu poderia querer. Mas, se tivermos que viver perto dos pais dele, temo que isso se tornará um problema.”

“Eu diria que sim.” A opinião de Elizabeth sobre Charles afundava rapidamente. “Você não mencionou nada sobre a mãe dele. Como ela é?”

“Ela mal falou uma palavra o tempo todo.”

“Apavorada pelo Sr. Bingley, como o filho. Deve ter sido um fim-de-semana terrível.”

“Não foi muito agradável,” Jane disse suavemente, olhando para a lagoa.

“Bom, certamente eu posso ver porque você não gostaria de se mudar para Los Angeles. Charles estaria sob a vigilância do pai o tempo todo. Você nunca perguntou a ele por que ele não falou nada?”

“Sim. Na verdade, tivemos uma briga depois que voltamos de viagem, e eu rompi o noivado.”

“Você rompeu o noivado? Você nunca me contou isso!” Elizabeth estava atordoada. Jane normalmente fazia o possível e o impossível para evitar confrontos. Se ela havia brigado com Charles, a situação deve ter sido medonha mesmo.

“Estivemos separados por apenas um dia. Então Charles veio me ver, e me garantiu que havia resolvido tudo—ficaríamos em São Francisco. E os Bingleys devem ter decidido que eu não era uma “caçadora de fortunas”, porque eles nem me pediram para assinar um acordo pré-nupcial. Então, me pareceu que tudo estava bem, e eu decidi deixar essa história para trás. Mas agora…” Jane parou de falar, mordendo o lábio.

Uma rajada de vento levantou um dos guardanapos, mandando o suavemente embora pelo gramado. Elizabeth o recuperou, apertando-o com força. “Continue.”

“Eu não sei. Às vezes eu acho que o Charles está me escondendo alguma coisa. Ele esteve nervoso e irrequieto essa semana. E eu ouvi, sem querer, uma conversa dele no telefone com o pai algumas noites atrás, falando sobre alguns acertos do casamento. Charles disse a ele, ‘Não diga nada a Jane sobre isso.’”

Isso estava ficando cada vez pior. “Você não descobriu o que ele quis dizer?”

“Eu não ia dizer nada no começo—afinal, eu estava escutando a conversa deles, mesmo que não tenha sido intencionalmente. Mas finalmente eu disse à ele o que eu ouvi, e perguntei o que é que o pai dele não deveria supostamente me dizer.”

“O que ele te disse?”

“Ele pareceu alarmado, mas então me disse que tinha pedido ao pai para não tornar a decisão deles de ficar no Ritz algo importante. Veja, eu acho que deveríamos ser hospitaleiros com os membros mais próximos das famílias, e não devíamos mandá-los para hotéis. Então Charles estava provavelmente dizendo a verdade, mas eu me perguntei se estava mesmo por um momento.”

Elizabeth hesitou, mas finalmente ela disse as palavras que estavam na ponta de sua língua. “Se você não está certa sobre o casamento, não é tarde demais para mudar de idéia.”

“Céus, não. Não estou dizendo isso. Se ele não tivesse falado com o pai sobre nossos planos e resolvido tudo, seria diferente. Aí sim eu teria problemas em respeitá-lo. Mas ele resolveu tudo, mesmo que tenha demorado alguns dias.”

“Então, você tem certeza de que está tudo bem?”

Jane parou por um momento, olhando fixamente para a grama, e então balançou a cabeça. “Sim. Mas me ajudou muito falar com você. Estou me sentindo bem melhor agora.”

“Bom.” A conversa teve o efeito oposto em Elizabeth. Parecia que Jane estava entrando numa família bem complicada. Mas, pensando melhor, os Bennets não são exatamente a família Brady**.

Palace of Fine Arts Três crianças estavam à margem da lagoa, alimentando os patos, que investiam freneticamente na comida e grasnavam seus pedidos urgentes por uma segunda porção. O sol quente da tarde cozinhava a pele muito branca de Elizabeth. Os olhos dela começaram a pesar enquanto a manhã corrida dela começava finalmente a cobrar seu preço. Ela sobressaltou-se levemente quando Jane falou com ela.

“Lizzy, o que você vai usar no jantar de ensaio?”

“Meu vestido azul marinho florido.”

“Aquele vestido longo, largo, de gola alta?” Jane fez uma careta. “Aquele que você usou na véspera de Natal?”

“Por quê? Não é suficientemente chique?”

“Na verdade, não. Os Bingleys estarão dando o jantar num salão privado do Ritz. Vai ter música ao vivo e tudo mais—vai ser quase que uma mini-recepção—então, precisamos estar bem vestidos. Desculpe—achei que tinha dito a você.”

“Hmmm.” Elizabeth lembrou-se de Jane ter mencionado isso, mas seu orçamento não permitiu que ela comprasse um vestido novo, então ela esqueceu-se, convenientemente.

“Além do mais, você tem um corpo fabuloso, e você vive insistindo em escondê-lo.” Jane direcionou um olhar reprovador à blusa larga e à longa saia de Elizabeth.

“O que você está dizendo? Devo ir ao jantar usando um biquini?”

“Claro que não. Mas você podia mostrar seus atributos, mesmo estando bem-vestida.”

Era um refrão familiar. “Mostrar meus ‘atributos’ para quê?” Elizabeth perguntou, rolando os olhos. “Para que eu possa topar com um bando de homens tarados que vão querer me levar para a cama e depois conquistar outra mulher?”

“Nem todos os homens são assim.”

“Vou ter que acreditar em você.” Elizabeth pôde sentir a frustração de Jane, mas o campo de batalha já havia sido traçado há anos.

“Vamos,” Jane disse num tom mais ameno. “Vamos fazer umas compras, vamos comprar um vestido novo para você usar hoje à noite.”

“Não. Você não vai ganhar essa discussão me levando para uma loja e me fazendo passar vergonha, me fazendo comprar um modelito justíssimo de spandex. Além disso, eu não tenho como comprar um vestido novo.”

“Então eu compro para você.”

“Não, Jane. Você sabe como eu me sinto sobre gastar seu dinheiro.”

“Mas a situação é outra. Este é seu presente por ser minha dama de honra. Por favor, Lizzy. Podemos ir à Union Square. Você sabe o quanto gosto de comprar coisas.”

“Mas—”

“Além do mais, você não gostaria de virar a cabeça de William Darcy hoje à noite?”

Elizabeth tentou conter o riso. “Eu preferia fazer isso arrebentando aquele nariz arrogante dele.”

“Lizzy!”

“Ok, ok, retiro o que disse.”

“E, sabe, se a mamãe achar que você não está bem-vestida, você vai ouvir até não querer mais.”

“Uau. Você está realmente usando a artilharia pesada.”

“Podemos brincar de Erro Fashion se você quiser.”

Elizabeth tinha inventado esse jogo quando adolescente. Cada uma delas pegava um modelo ridículo para a outra provar. Ela riu suavemente, pensando nos erros—ou mais apropriadamente, cataclismas—que ela havia feito Jane provar no passado.

Jane sorriu para ela, as sobrancelhas erguidas. “E então? Vamos fazer compras?”

“Vamos fazer compras.” Elizabeth se levantou e alisou sua saia. “Mas nada muito caro.”

“Não se preocupe. Acharemos algo absolutamente lindo em oferta.”

“Só um aviso,” Elizabeth disse enquanto elas se dirigiam ao carro. “Se você acha que vamos comprar um mini-vestido vermelho na altura do meu umbigo, esquece.”

“Como se eu fosse tentar fazer isso. Eu sei o quanto você é teimosa. Mas não acho que você deva dispensar um mini-vestido preto. Você ficaria fabulosa, e aposto que William Darcy iria amar.”

Sem ser convidada, a imagem dos intensos olhos castanhos dele flutuavam na mente de Elizabeth. Ela se arrepiou, e forçou-se a lembrar da aspereza dele com Jane. “Como se eu me importasse com William Darcy,” ela disse alegremente. “Esqueça dele—eu já esqueci.”

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“Estamos à um quarteirão da casa agora,” Jane disse, a voz dela mais alta de ansiedade.

A expedição às compras havia sido um sucesso. Elizabeth tinha de admitir que o vestido que elas haviam escolhido era lindo—e, o melhor de tudo, estava em oferta. Se ela trabalhasse horas extras suficientes no restaurante, ela poderia pagar à Jane pelo vestido em poucas semanas. Os sapatos combinando levariam um pouco mais de tempo. Ela não podia aceitar caridade de Jane, nem mesmo disfarçada como presente de dama de honra.

“Bem, o que você acha?” Jane encostou o carro na entrada de carros de uma casa estilo Vitoriano de três andares amarelo-clara ornamentada em verde escuro.

“Oh, Jane, é linda!”

“Eu não achava que deveríamos gastar tanto, mas Charles insistiu. E devo dizer, é uma casa maravilhosa.”

Elizabeth apontou para uma BMW vermelha estacionada perto da guia. “Que carro! É do Charles?”

“Não. Alguém deve estar visitando um dos nossos vizinhos.”

“Talvez seja um presente de casamento surpresa do Charles para você,” Elizabeth disse, os olhos dela brilhando.

“Bem, ele vive tentando me comprar um carro novo, mas eu não preciso de um. E, de qualquer maneira, um carro de dois lugares não é nada prático.”

“Mas a vida não é feita só de praticidade. Esse carro deve ser divertido de dirigir! E o que você quer dizer com “não preciso de um carro novo?”

“Amo meu carro.” Jane deu um tapinha carinhoso no painel.

“Mas você sempre teve esse carro.”

“Ele nunca quebra, e rende muito bem. E está em ótimo estado—alguns amassados e arranhões, e pintura está meio gasta, mas é só isso.”

“E eu pensei que aqui todos os advogados eram ricos e dirigiam carros caros. Mas não minha econômica e diligente irmã.”

Elas entraram na casa, e Elizabeth se viu numa espaçosa cozinha com balcões de granito e armários brancos que brilhavam. Era tão grande quanto seu apartamento inteiro em Nova York. “Que linda!”

“Você viu a geladeira embutida?” Jane parecia uma criança na manhã de Natal.

“Tudo é maravilhoso.”

Jane levou Elizabeth para conhecer o resto da casa. Os quartos e salas eram grandes e confortáveis, a luz do sol banhava-os pelas janelas. O quintal nos fundos era grande para os padrões de cidade, suas altas árvores criavam um oásis particular. Elizabeth olhou para fora através das janelas da suíte master para o jardim, e notou um caminho de pedras que levava à uma profusão de cores em um canto.

“Que lindo jardim!”

“Por quê você não vai até lá e aproveita? Estarei com você em poucos minutos. Preciso apenas embalar umas coisas para hoje à noite.”

Elizabeth desceu as escadas e cruzou as portas Francesas até o pátio. Ela congelou ao ouvir som de vozes vindo do jardim abaixo dela.

“Tudo o que estou dizendo, Charles, é que você deve tomar cuidado, especialmente porque você a conhece há apenas três meses.”

“Will, já falamos sobre isso. Ela não está casando comigo pelo meu dinheiro, e vamos ficar casados para sempre, então, desista.”

Jane havia mencionado os planos de Charles de almoçar com William Darcy. Aparentemente, eles haviam voltado para cá depois do almoço. E, como se insultar Jane no aeroporto não tivesse sido o bastante, agora ele tentava interferir com o casamento.

“Eu espero que você saiba o que está fazendo.” William parecia duvidoso.

“E eu sei. Eu a amo.” A voz de Charles era quente e entusiasmada, e Elizabeth gostou dele instantaneamente. “Espere até conhecê-la—sei que você vai gostar dela também. E estou realmente ansioso para conhecer Elizabeth.”

“Elizabeth?”

“Irmã de Jane, a dama de honra. Ela mora em Nova York. Jane e eu pensamos que se vocês se dessem bem no casamento, talvez quando você voltasse você poderia ligar para ela e—”

“Charles, por favor, não me diga que você está tentando transformar esse casamento um encontro às escuras para mim. Você sabe o quanto eu odeio isso.”

“Mas a Jane pensou que você pudesse gostar de Elizabeth. Ela parece ser bem divertida, e eu ouvi dizer que ela é uma grande admiradora sua.”

“Oh, que maravilha, uma fã risonha pendurada no meu braço. É tudo o que preciso.”

Elizabeth rolou os olhos. Não se preocupe, Sr. Darcy. Você acabou de eliminar qualquer chance de eu me pendurar em qualquer parte de você.

“Eu disse admiradora, não fã. Na verdade, Elizabeth faz performances, como você.”

“É?” William conseguiu colocar uma quantidade extraordinária de arrogância naquela única sílaba.

Ele tem um ego e tanto, é incrível como a cabeça dele não exploda.

“Elizabeth é uma atriz e cantora. E ela também é—”

“Que tipo de cantora?”

“De musicais de teatro, Broadway, esse tipo de coisa. Então eu e Jane pensamos que, por causa dos dois serem músicos—”

William riu debochado. “A habilidade de berrar uma música de show não me impressiona. Se ela cantasse ópera, eu a chamaria de músico.”

Elizabeth segurou sua respiração, indignada.

“Essa é uma atitude elitista,” Charles disse, “especialmente vinda de você. Afinal de contas, você maculou seus dedos de músico clássico tocando jazz.”

“Jazz é meu hobby, não minha profissão,” William disse num tom superior. “Além disso, ele requer habilidades e técnica. Qualquer estudante de colegial que aprecie música pode cantar uma música da Broadway.”

“Diga o que quiser, mas eu acho que é necessário muito talento para ser bem-sucedido num musical.”

“E Elizabeth é bem-sucedida?”

Charles hesitou. “Bom, pelo que entendi ela tem se saído bem, embora você saiba como é competitivo esse meio. Jane disse que ela já trabalhou em alguns musicais. Mas, além disso, ela não é exatamente—”

“Sei. Não é bem-sucedida. Onde ela mora?”

“Na parte baixa do East Side, Jane disse. Algum lugar próximo da rua Delancey.”

“E você achou que ela seria a mulher certa para mim? Charles, seja realista. Você sabe como é minha vida social.”

“Inexistente?” Charles brincou.

Elizabeth cobriu a boca para silenciar uma risadinha.

“Muito engraçado. Eu tenho que fazer aparições públicas e ir à eventos beneficentes. Uma garota que trabalha num subemprego de meio-período da parte baixa do East Side dificilmente se encaixaria no meu nível social.”

Elizabeth engoliu com raiva, a mandíbula cerrada. Foi necessária cada partícula de auto-controle que ela possuía para não entrar reboando no jardim para dizer a William Darcy o que ele podia fazer com seu precioso “nível social.”

“Will, por que você está sendo tão negativo quando você nem mesmo a viu ainda?”

Elizabeth estava gostando ainda mais de Charles a cada minuto.

“Nem você viu, então eu não vejo porque você está tão convencido de que ela é boa para mim. Ela não parece ser meu tipo de maneira alguma.”

“Tudo bem, se você insiste em ser teimoso, desisto de ser seu cupido. Por favor, seja ao menos educado com Elizabeth no fim-de-semana, ok?”

“Claro. Eu jamais faria algo para criar uma situação desagradável em seu casamento.”

Elizabeth ouviu passos atrás dela. Ela se virou e olhou para dentro da casa. Jane, com uma sacola enorme nos ombros, estava se aproximando das portas Francesas.

“Lizzy, por que você está aqui de pé?” Jane perguntou quando entrou no pátio. “Eu pensei que você estivesse no jardim.”

“Shhhh! Fala baixo!” Elizabeth sussurrou, mas era tarde demais.

“Jane? Querida, é você?” Charles galgou os degraus até o pátio. “Venha, Will. Venha conhecer minha garota.”

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William ficou no pé das escadas, e olhou para cima, para Jane. Ela parecia familiar, mas ele não conseguiu lembrar de onde a conhecia. E então as palavras de Charles naquele dia mais cedo flutuavam em sua mente: “Jane foi encontrar a irmã dela no aeroporto.” As peças do quebra-cabeças se encaixavam agora com um baque surdo e enjoado.

Ele abafou um gemido. Ela não tinha se aproximado dele para pedir um autógrafo; ela estava tentando se apresentar. Nas circunstâncias nas quais eles se encontraram, esse seria um erro normal dele, mas ela poderia não ver isso. A Lei de Murphy acertara novamente. Será que havia maneira daquilo ficar ainda mais embaraçoso?

E então ele se lembrou da companhia de Jane no aeroporto, e seu embaraço tornou-se mortificação. Ele a via agora, de pé, ao lado de Jane, uma hostilidade ardendo nos olhos dela. Nos olhos verdes dela.

Ele se arrastou pelos degraus, desejando que a Falha de San Andreas se abrisse e o engolisse. Esta parecia ser a única maneira de escapar da humilhação. Na hora em que ele chegou no pátio, ele reuniu compostura o suficiente para mostrar-se indiferente.

Charles, um braço em volta da cintura de cada irmã, sorria feliz. “Will, venha aqui conhecer essas adoráveis senhoritas. Primeiramente, esta é minha noiva, Jane Bennet.”

William estava aliviado de ver compaixão nos olhos de Jane. Ela lhe ofereceu a mão, a qual ele aceitou. “Srta. Bennet—”

“Por favor, me chame de Jane.”

He assentiu. “Jane. Por favor, aceite minhas desculpas.”

“Não há necessidade. Você apenas entendeu mal o que eu queria.”

“É muita bondade de sua parte.”

“Espere um minuto,” Charles disse, fazendo careta. “O que é que está acontecendo?”

“William e eu nos falamos brevemente no aeroporto, mas ele não sabia quem eu era. Ele achou que estava sendo assediado por uma fã.”

Charles riu gostosamente. “Jane é a loira bonita que você achou que queria seu autógrafo?”

“Sim,” Elizabeth disse, dirigindo um olhar insolente na direção de William. “O Sr. Darcy foi um perfeito gentleman, não foi, Jane? Tão charmoso, tão bondoso.”

Jane retraiu-se e deu um passo a frente. “William, esta é minha irmã, Elizabeth.”

He inclinou a cabeça. “Olá.” Ele não conseguia se lembrar da última vez que se sentira como um confuso adolescente de 14 anos.

“Olá,” ela disparou, os olhos dela duas esmeraldas frias e brilhantes.

William lutava consigo mesmo, tentando encontrar algo para dizer. Infelizmente, os pensamentos que passavam por seu cérebro, rápidos como uma bala, eram demasiadamente inapropriados. “Você tem os olhos mais lindos que eu já vi em toda minha vida,” talvez? Ou “Por favor, me explique por que meu coração começou a bater mais rápido quando eu a vi no topo das escadas”?

“Lizzy é a dama de honra,” Jane disse, preenchendo o estranho silêncio.

Elizabeth olhou intensamente para ele, um desafio imperioso em seus olhos, e ele sentiu que ela o desafiava a falar algo.

“Então … é … Eu suponho que nos veremos bastante nesse fim-de-semana.” William quase que gemeu em voz alta. Será que eu podia parecer mais vago e tolo?

“Suponho que sim,” ela respondeu, sorrindo animada. “Mas eu prometo não pedir seu autógrafo, e farei o possível para não ficar rindo como boba, e nem vou ficar muito pendurada em seu braço.”

Por um momento, o tom alegre dela o acalmou, fazendo com que ele acreditasse que ela pretendia que o comentário fosse uma provocação bem-humorada. O alívio dele durou muito pouco. Embora os lábios dela esboçassem um sorriso, os olhos dela permaneciam mais frios do que nunca. Ele olhou para o outro lado, tendo o cuidado de parecer não sentir emoção nenhuma.

Elizabeth voltou-se para Jane. “Acho que estamos atrapalhando os rapazes. Tenho certeza de que eles estavam tendo uma boa conversa, sobre todo tipo de coisas. Por quê não vamos para o seu condomínio e descansamos um pouco? Veremos eles mais tarde, no ensaio.”

“Certo, se é o que você quer,” Jane disse.

“Charles, é um prazer conhecê-lo finalmente,” Elizabeth disse, sorrindo calorosamente.

“Acho o mesmo, Elizabeth, mas é claro que eu prefiro que vocês fiquem aqui hoje à noite ao invés de irem para o apartamento de Jane.”

“Apartamento de Jane?” William disse.

“Jane tem um apartamento num condomínio perto de Buena Vista Park,” Charles disse. “Ela ainda não o vendeu, então ela e Lizzy ficarão lá hoje à noite. A menos que eu as faça mudar de idéia.”

Jane chacoalhou a cabeça, sorrindo. “Você sabe que dá azar você me ver antes do casamento. Como vamos evitar isso se nós dois ficarmos aqui?”

“Eu usaria uma venda alegremente por uma boa causa,” Charles disse, alegre. Ele puxou Jane em seus braços para beijá-la.

William assistiu a Jane e Charles perdendo-se um no outro. Apesar de suas preocupações, ele se viu invejando a felicidade do amigo. Ele olhou de relance para Elizabeth, que esboçava uma expressão um tanto quanto triste enquanto olhava a irmã. Ela deve ter sentido o olhar dele, porque os olhos dela encontraram os dele e a expressão dela endureceu-se.

Charles levou Jane e Elizabeth até o carro, deixando William sozinho no pátio. Ele ficou feliz pelo sossego. Já era hora de para de se comportar como um adolescente completamente apaixonado. Ele lembrou a si mesmo da profissão de Elizabeth, da juventude dela, e do endereço dela na parte baixa do East Side. Um par de olhos verdes de extrema beleza não mudava nada daquilo. Além do mais, de maneira alguma ela podia ser mais bonita do que a irmã. Ela era bonita o suficiente, mas faltava nela a elegância e a sofisticação das mulheres que ele já conhecia socialmente. E mais, a língua ferina dela, assim como seu temperamento curto, eram características nada atraentes.

Ele resolveu ser educado para com ela, mas não mais do que isso, pelo resto do fim-se-semana. E então ele poderia retornar a Nova York, separado dela por um enorme abismo de riqueza e privilégios. De volta ao ambiente familiar, seria fácil de parar de pensar nela. Ele estava bem certo disso.

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* São Francisco é as vezes chamada de “ A Meca Gay,” por causa de sua grande e ativa população gay. O bairro chamado “The Castro” é identificado como sendo da comunidade gay.

**The Brady Bunch – série americana, vinculada nos anos de 1969 a 1974, a qual retratava o dia-a-dia da família Brady. O pai era viúvo, tinha três meninos do primeiro casamento. Casou-se com uma mulher que também tinha três filhas do primeiro casamento (não se sabe o que aconteceu com o primeiro casamento dela).

 

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