Uma Canção Inesperada

Capítulo 5

 

Começando neste capítulo, vou incluir links ocasionais relativos às performances musicais de nossos músicos. Por causa da importância da música na comunicação emocional deles, fica difícil contar uma estória de amor sobre dois músicos sem incluir a música deles. E isso é particularmente verdade quando um dos músicos é inepto em comunicação verbal como o pobre William—pelo menos, no que diz respeito à Elizabeth.

Não poderei deixar os links pra sempre, mas deixarei o quanto puder.

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Quando o jantar finalmente terminou, William sentiu como se tivesse sido libertado de uma sentença de prisão perpétua. Ele se colocou de pé numa velocidade que assustou Caroline.

“Onde você está indo?” ela falou alto, pulando da cadeira para seguí-lo. “Pensei que aquela mulher, aquela horrenda Bennet, nunca mais fosse parar de falar, mas estamos livres dela agora. Por quê não vamos dar um bom passeio silencioso no jardim?” Ela colocou uma mão possessiva no braço dele.

Ele olhou de relance para fora das portas de vidro, que davam para um viçoso jardim com uma linda paisagem. Seus caminhos um pouco escuros pareciam o cenário perfeito para um encontro romântico. Ele deu de ombros, e deu um passo, afastando-se dela. “Desculpe-me, mas tenho que tocar para os convidados daqui há pouco. Preciso checar as condições do piano. Com licença.”

Guinchos altos surgiram de uma mesa próxima—Lydia e Kitty estavam divertindo-se a valer, rindo de alguma coisa. Charlotte Lucas levantou-se da mesa, acompanhada pelo homem que estava sentado do lado dela. Ela sorriu para William e habilmente direcionou o companheiro na direção dele.

“Olá, William” ela disse. “Como estava o jantar em sua mesa?”

“Um pouco mais silencioso do que o seu, mas não muito.”

Ela deu uma risadinha. “A Sra. Bennet gosta muito de falar, mas as intenções dela não são ruins. Ela sempre foi muito boa para mim. William, você conheceu Roger Stonefield?”

“Nos conhecemos mais cedo,” disse Roger.

William reconheceu Roger como um membro do conjunto de jazz de Charles, embora ele não fosse capaz de lembrar do nome dele. Ele assentiu com a cabeça e enfiou as mãos nos bolsos.

“Imagino que você toque um pouco de jazz no piano,” Roger disse.

William assentiu novamente. “Charles deve ter mencionado que formamos um conjunto de jazz enquanto estávamos na Juilliard.”

“Sim, ele já falou algumas vezes sobre esses tempos. Talvez amanhã na recepção você pudesse substituir nosso tecladista por alguns instantes. Você o conheceu, certo? O nome dele é Bill Collins.”

“Oh, grande idéia!” Charlotte disse. “Aposto que os convidados vão adorar isso.”

“Você acha que Collins fará alguma objeção?” William perguntou, embora não se importasse muito com isso.

“Acho que não,” Roger respondeu, com um sorriso brincalhão. “Pelo que eu percebi hoje à noite, acho que ele adoraria passar algum tempo extra com a irmã de Jane—aquela linda garota de cabelos escuros. Esqueci o nome dela.”

“Elizabeth,” William respondeu num tom sinistro. De repente, substituir Bill Collins não parecia uma idéia tão boa.

“Sim, ele parece gostar de Elizabeth, não parece?”

William viu Charlotte olhando para ele enquanto falava. Ele reforçou a expressão neutra dele, mas não conseguiu deixar de fazer o comentário, “Eu os vi saindo juntos agora pouco. Me pergunto onde terão ido.”

Charlotte pareceu achar a pergunta dele divertida, embora ele não pudesse ver nenhum humor na situação. Os olhos dela brilharam quando ela disse, “Eu não sei, mas tenho certeza de que voltarão logo. Bem, nos dê licença. Roger e eu estamos indo lá fora, no jardim, para tomarmos um pouco de ar.”

Uma pequena banda ajeitava-se na frente da sala. Ele observou o progresso deles sem pensar muito, até que sua atenção foi chamada pela voz de Charles atrás dele. “Will? Preciso falar com você.”

William virou seu rosto para o amigo, preocupado com seu agitado tom de voz. “O que há de errado?”

“Aquelas coisas que você falou no jantar sobre a carreira de Elizabeth. Você não disse mesmo aquilo tudo a ela, disse?”

“Por quê você está me perguntando isso?”

Charles fechou a cara. “Sei que você acha que música clássica é a única coisa que realmente vale para um músico sério, mas você não disse realmente a ela que ela estava desperdiçando o talento dela, disse?”

“Não usei essas palavras exatas. Mas ela tem talento para muito mais, e eu queria que ela soubesse disso. Tenho as habilidades dela em grande estima.”

“Mas não o julgamento dela, aparentemente, pois você acha que sabe mais sobre as escolhas relacionadas à carreira dela do que ela mesma.”

“Ela deve concordar comigo que a Broadway foi um erro—afinal, ela está desistindo para ser professora.”

“Suponhamos que alguém o chame de tolo por perseguir uma carreira musical clássica. Você não ficaria ressentido com isso?”

“Não, porque seria ridículo que alguém dissesse isso. Eu sou bem sucedido. Elizabeth não.”

“Como você fez questão de frisar para a mãe dela.” Charles chacoalhou a cabeça. “Você realmente não vê nada de errado com o que você disse?”

“Não, não vejo,” William respondeu, embora a dúvida começasse a remoer dentro dele.

“Bem, espero que seja lá o que você tenha dito para Elizabeth não tenha ofendido-a.” Charles olhou de relance para a mesa de jantar, onde Jane e o pai dele ainda permaneciam sentados. Jane lançou um olhar de clemência na direção de Charles. “É melhor eu ver o que está acontecendo ali. Falo com você mais tarde.”

Charles se apressou em voltar para a mesa. William balançou a cabeça. Pobre Charles, ele estava sentado num barril de pólvora!

catnip ball Caroline continuou pelo salão, falando com Louisa, mas os olhos dela nunca saíam de William. Se ele continuasse sozinho, sem dúvida ela se materializaria ao lado dele, e pegaria no braço dele possessivamente, como um gato armando o bote em sua bolinha. Estar em ação era essencial. Ele queria testar o piano, mas teria que esperar até que a banda acabasse seus preparativos.

Então, como posso parecer ocupado sem realmente estar ocupado? E onde está Elizabeth? Ela e Bill Collins já tinham saído há algum tempo. E não só isso: eles pareciam estar bem confortáveis na companhia um do outro no jantar. E Elizabeth tinha beijado Collins! Tinha sido apenas um beijo na bochecha, mas a imagem parecia gravada no cérebro de William. Não que eu esteja com ciúmes. Afinal, por quê eu estaria com ciúmes de um idiota de um pretencioso tecladista nerd que estava perdendo os cabelos? Além disso, se o gosto dela em homens for tão ruim, ela o merece.

A expressão de Caroline havia tomado um brilho predatório, ele podia sentir até mesmo de onde estava. Era hora de se mexer, ou teria que lidar com as conseqüências. Ele foi até o corredor novamente, sentando-se outra vez na poltrona que ocupou antes do jantar, e rezou para que ela não o seguisse.

Ele começou a considerar sobre o que tocaria para os convidados. Devia ser algo curto, e que todos estivessem familiarizados, para o bem de pessoas como a Sra. Bennet e Lydia, que não seriam capazes de ficar sentadas no lugar por mais tempo que a duração da “Minute Waltz.” Mas então ele pensou em outra pessoa, que também estaria na platéia dele. Era uma chance de tocar para ela, uma chance de demonstrar sua arte e virtuosidade. Talvez ela ficasse impressionada pela performance dele, e falaria então com ele, apesar de tudo.

Ela era um mistério—às vezes sarcástica, noutras silenciosa e amigável. As coisas tinham ido tão bem no carro, embora ela o estivesse ignorando desde que eles chegaram no jantar do ensaio. Charles pensou que ela talvez tivesse ficado ofendida pelas observações dele, mas Charles era notavelmente uma pessoa muito sensível, e parecia acreditar que os outros também fossem. Educação era uma coisa, mas nem todos precisavam de um tratamento tão delicado.

Talvez ela não estivesse evitando-o tanto, afinal ela estava usando o tempo dela para visitar a família e os amigos. Ele havia ouvido dela mesma que ela e Charlotte precisavam colocar a conversa em dia. Quanto ao Bill Collins, Elizabeth tinha que ser educada para com ele —ele trabalhava no conservatório onde ela esperava conseguir um emprego. Beijá-lo parecia mais uma mesura, e tinha sido apenas um beijo na bochecha. Se ao menos ela soubesse quem é que realmente poderia ajudá-la a impressionar a Catherine de Bourgh… Talvez eu tenha uma chance de dizer isso a ela amanhã.

E também tem essa coisa toda da Elizabeth ser minha fã. Enquanto alguns fãs eram agressivos e falantes, como a mulher no aeroporto JFK naquela manhã, outros ficavam intimidados, tomados por um nervoso silêncio quando o conheciam. Ele não acreditava não ter pensado nessa possibilidade antes. Talvez ela quisesse falar com ele, mas estivesse intimidada com a presença dele, por causa da admiração dela pelo talento dele. Ela não parecia tímida, mas ele havia aprendido que a devoção podia fazer coisas estranhas às pessoas normais.

Ele se sentou de volta na cadeira e fechou os olhos, resolvendo parar de levar as atitudes de Elizabeth para o lado pessoal, afinal não havia motivo para isso. Amanhã, no casamento e na recepção, ele teria amplas oportunidades para falar com ela. Tudo se desdobrava como deveria. Ele estava à beira de um sono leve quando ouviu vozes vindo do começo do corredor.

“Imagine quanto os Bingleys gastaram nesse jantar! Minha doce Jane certamente se deu muito bem, não é mesmo?”

“Sim, Francie, com certeza. Mas ela sempre foi uma moça muito esperta.”

William olhou de relance para o lugar de onde vinham as vozes, e viu a Sra. Bennet falando com sua irmã, a Sra. Phillips.

“Vibrei de emoção quando soube que ela estava saindo com um homem rico,” crocitou a Sra. Bennet. “Eu disse a ela para segurá-lo, a qualquer preço. Hábitos irritantes são facilmente ignorados se você tem muito dinheiro para te distrair. Espero que a sorte dela seja melhor do que a minha. Eu te contei que um dos meus ex-namorados é um milionário agora?”

“Não! É mesmo? Qual?”

“Lembra do Mike Woods? Ele e o filho começaram um negócio juntos, fazendo uma coisa e outra na Internet—eu não sei bem o quê, mas quem é que sabe o que eles todos realmente fazem—e eles venderam a empresa por milhões. Milhões! Você consegue imaginar? Tentei, por várias vezes, fazer com que Andrew começasse sua própria empresa relacionada à Internet, mas ele me ouviu? Não! Poderíamos estar ricos agora,” lamentava-se a Sra. Bennet.

“Muitas empresas de Internet estão falindo, Francie. Não existem garantias.”

“Bom, não importa mesmo, porque Jane será rica, e eu sei que ela será de grande ajuda para nós. E Charles certamente tem alguns amigos ricos para que as outras meninas conheçam.”

“Como William Darcy, por exemplo” respondeu a Sra. Phillips.

Ele se mexeu na cadeira, suspirando silenciosamente.

“Sim, exatamente,” disse a Sra. Bennet. “Pelo que você me contou antes do jantar, parece que a mansão dele em New York é incrível. E a casa de férias dele—eu me esqueci, como é mesmo que se chama?”

“Pemberley. É uma linda fazenda antiga, dizem. As terras são supostamente fabulosas.”

“Ele é um bom partido para uma das meninas. E ele pareceu interessado na carreira de Lizzy, então, talvez… Mas eu não sei. Ele parece tão metido—e, além disso, eu sinto que ele está envolvido com a irmã de Charles, Caroline. Ela está sempre de olho nele, sussurando coisas no ouvido dele.” A Sra. Bennet abaixou o tom de voz, mas não o suficiente para que William não a ouvisse. “E você sabe que eu a vi colocando a mão no joelho dele durante o jantar? Duas vezes!”

A Sra. Phillips deu uma risadinha nervosa. “É mesmo? Bom, não posso culpá-la—ele é realmente muito bonito. Mas Charles também é. Jane é uma garota de sorte.”

“Não, ela é uma garota esperta. Eu a ensinei bem. Você devia ver a casa que ele comprou para ela! Ele pagou quase três milhões de dólares, em dinheiro vivo.”

“Três milhões? Em dinheiro vivo? Meu Deus!”

“E a casa é—”

A Sra. Phillips interrompeu. “Quero retocar a maquiagem antes da música começar. Me conta o resto no banheiro.”

As mulheres foram embora, as vozes delas sumindo, e William ficou ali, de pé, fazendo cara feia. Ele odiava que fofocassem sobre ele e a família dele. Pior ainda foi a atitude gananciosa da Sra. Bennet em relação ao dinheiro de Charles. A observação dela sobre Jane ecoava nos ouvidos dele: “Ela é uma garota esperta. Eu a ensinei bem.” Os piores medos dele se confirmaram.

Novas vozes ecoaram no corredor. Ele se virou, e viu Elizabeth e Bill Collins se aproximando. Bill tinha um livro de partituras na mão, e os olhos de Elizabeth brilhavam de ansiedade. Ela estava linda, vibrante, e mais sexy do que ele preferia contemplar.

“Olá, William,” ela disse. “Pronto para entreter as massas?”

Ele estava prazeirosamente surpreso pelo calor do cumprimento dela, grato pela prova de que os avisos de Charles haviam sido desnecessários. Ele sorriu para ela, ignorando Bill Collins. “Estou ansioso para ouví-la. O que você vai cantar?”

Os lábios dela crisparam-se. “Oh, apenas uma música de Gershwin. Mas eu a escolhi com você em mente.”

Ele sorriu para ela, em deleite. “Estou lisonjeado.”

Os olhos de Elizabeth dançavam, travessos. “Sim. Bem, você vai voltar para dentro?”

Ele a acompanhou de volta ao Terraço e ficou ao lado dela por um momento, esperando poder continuar sua conversa com ela. As esperanças dele foram violentamente destruídas quando Bill sussurrou algo para ela, lançando um olhar na direção de William. Elizabeth voltou-se para Bill, deu as costas para William, e falou num tom baixo.

grand piano A banda havia terminado seus preparativos, então William foi até o piano. Os dedos dele acariciaram as teclas reverentemente enquanto ele tocava uma escala simples. Então, ele tocou vários arpeggios, seguidos de uma série de notas, e finalmente a abertura da peça que ele planejava tocar. O piano estava bem afinado, tinha um bom tom, com um bom equilíbrio de calor e brilho.

Charles se aproximou, sorrindo abertamente. “Você está pronto?”

“Só estava me certificando de que o piano está em boas condições. Por favor, deixe Elizabeth ir primeiro.”

William sentou-se na mesa mais perto do piano, virando sua cadeira para que ele estivesse de frente para a entrada do palco. Os olhos dele seguiram Charles quando este se aproximou de Elizabeth e Bill e falou brevemente com eles. Elizabeth lançou um olhar em direção a William, e então ela e Bill se moveram, indo para a frente do salão.

Bill, irradiando importância, se instalou no piano e abriu o livro de partituras. Elizabeth ficou perto dele, atrás dele, estudando a folha de música por cima do ombro dele, e conversando com ele entusiasticamente. Ela colocou uma mão no ombro de Bill por apenas alguns instantes, a fim de aprumar-se enquanto apontava algo no meio da página, e William sentiu uma pontada de—inveja? Não, isso é impossível.

Nunca antes ele havia tido o mínimo interesse em acompanhar uma cantora. Ele era um artista solo, e tinha orgulho disso. Orquestras acompanhavam-no; ele não acompanhava outros. Mas agora ele se imaginava arrancando Bill do banco do piano, jogando-o no chão, tomando o lugar dele, e tocando a introdução de uma lenta, extremamente quente canção de amor. Talvez algo como “Bewitched, Bothered, and Bewildered.” (Enfeitiçado, Perturbado e Perplexo).

Na imaginação dele, Elizabeth estava ao lado dele, os braços dela entrelaçados no pescoço dele. Quando ela começou a cantar as palavras de amor e desejo naquela voz ardente e linda dela, ela tirou o paletó dele, deslizando-o pelos ombros, e tirou a gravata dele. Depois, ela desabotoou a camisa dele lentamente, os movimentos dela sedutores, enquanto ela continuava cantando. Quando as delicadas mãos dela escorregaram para dentro da camisa dele e começaram a acariciar o peito nu dele, ele abandonou então qualquer pretensão de tocar o piano. Ele virou-se no banco do piano e puxou-a, sentando-a no colo dele, capturando os lábios dela num beijo ardente. Ela perdia o fôlego ante a ousadia dele, mas respondia à paixão dele com a dela, mergulhando as mãos dela no cabelo dele enquanto pressionava seu suave corpo contra o dele com urgência—

De novo não! Ele não conseguia se lembrar da libido dele estar tão descontrolada quanto hoje, nem mesmo na adolescência dele. Ele mordeu o lábio enquanto tentava recuperar seu auto-controle.

Naquele momento, os olhos dela encontraram os dele, e ele desviou o olhar, humilhado pela possibilidade de que ela pudesse adivinhar os pensamentos dele. Ele não tinha idéia do porque ela, dentre todas as mulheres, tinha trazido-o para um estado quase que contínuo de excesso de testosterona. Ele conhecia dúzias—talvez centenas—de mulheres pelo menos tão atraentes quanto Elizabeth, mulheres que o tratavam com respeito e interesse, mulheres elegantes e sofisticadas. Como, então, essa única garota de cabelos escuros e olhos verdes poderia tê-lo deixado tão confuso e ansioso tão rapidamente?

O devaneio dele foi interrompido por uma mão no ombro dele. Assustado, ele se virou, para ver Caroline de pé, ao lado dele.

“Onde você esteve? Eu estava te procurando,” ela disse, amuada.

Ele não respondeu. Não era da conta dela onde ele esteve.

Quando ele não a respondeu, sendo que ela havia repetido a pergunta, ela deu de ombros. “Bem, Estou feliz de que você esteja aqui agora.” Ela sentou-se do lado dele, puxando a cadeira para bem perto da dele, e seguiu o olhar dele para o piano. “Oh, veja,” ela gorgeou. “É aquela Bennet com os lindos olhos. O que ela vai fazer?”

Pareceu mais seguro ignorar o sarcasmo dela. “Ela vai cantar para nós. Não se lembra? Charles mencionou no jantar que ele ia pedir para ela cantar.”

“Esperava que ele estivesse brincando.” Ela cruzou os braços sobre o peito, de mau humor, “Era tudo o que eu queria—um concerto. Estava esperando que a banda começasse logo, para que pudéssemos dançar a noite toda.”

“Vou me apresentar também.”

“Bem, sim, é claro, querido, mas você é diferente. Você é um artista renomado internacionalmente, não uma pretenciosa metida a Barbra Streisand.”

Os olhos dele se estreitaram. “Elizabeth é muito talentosa.”

“Mas foi você mesmo que disse durante o jantar,” Caroline disse em voz alta. “Ela foi um fracasso na Broadway.”

O rosto dele esquentou, e ele olhou atentamente para Elizabeth, mas ela não mostrou sinais de ter ouvido a observação de Caroline. “Eu não disse isso. Além do mais, talento não garante sucesso. Como eu apontei anteriormente, também é preciso ter sorte.”

Charles foi até a frente do salão e chamou a todos, “Olá? Posso ter a atenção de vocês por um momento, por favor?”

Gradualmente, os convidados foram se silenciando. Alguns se sentaram nas mesas, enquanto outros permaneceram de pé em pequenos grupos em volta do salão. William ouviu uma comoção nos fundos do salão e virou-se, como outros convidados, para identificar de onde vinha. Ele viu Kitty e Lydia disparando pela porta, as duas segurando um drink em cada mão e rindo feito bobas.

“Jane e eu queremos agradecer a todos por estarem conosco neste fim-de-semana,” Charles disse. “Esperamos que vocês tenham gostado do jantar, e que dancem bastante daqui há pouco. Mas antes, temos a honra de termos entre nós alguns músicos muito competentes em nossa equipe, e dois deles concordaram em se apresentar para nós essa noite. Primeiramente, teremos minha querida quase-cunhada, Lizzy Bennet.”

Elizabeth acolheu os esparsos aplausos com um sorriso. “Eu espero que Jane e Charles me perdoem, mas eu não vou cantar uma melosa canção de amor. De fato, tenho algo bem diferente em mente—digamos assim, um tributo. Como vocês sabem, temos uma celebridade entre nós essa noite, o mundialmente famoso pianista-concertista, o Sr. William Darcy.”

Ele sorriu para si mesmo, contente por ser reconhecido pelo seu talento por ela, embora tais ocorrências tivessem um lugar comum em sua vida.

“Ele foi muito amável comigo, me oferecendo aconselhamento com relação à minha carreira hoje mais cedo. E claro que, quando alguém da estatura dele lhe dá um conselho, é sábio seguí-lo.”

Algo no tom dela pegou-o de surpresa. Os olhos dela fuzilaram os dele, e o coração dele despencou quando ele viu neles mágoa e raiva. “Esta música é para você, William, para mostrá-lo que estou dando ao seu conselho toda a consideração que ele merece.” Ela piscou para os outros membros da audiência, uma piscadela conspiratória.

Em resposta ao aceno dela, Bill Collins começou a tocar. Ela assumiu uma postura altiva e afetada, e, num tom exagerado de ópera, ela cantou:

Away with the music of Broadway (Fora com as músicas da Broadway)
Be off with your Irving Berlin. (fora com o seu Irving Berlin)
Oh, I’d give no quarter to Kern or Cole Porter, (eu não dou a mínima para Kern ou Cole Porter)
And Gershwin keeps pounding on tin. (e Gershwin continua tocando incessantemente)

How can I be civil (como posso ser decente)
When hearing this drivel? (enquanto ouço essa infantilidade?)
It’s only for night-clubbing souses. (isso é apenas para bêbados em night-clubs)
Oh give me the free ’n easy (oh, me dê a leve e solta)
Waltz that is Viennes-y (valsa que é Vienense)
And go tell the band (e vá dizer à banda)
If they want a hand (que se eles querem uma ajuda)
The waltz must be Strauss’s (a valsa tem que ser de Strauss)

Ya ya ya
Give me oom pah pah …

When I want a melody (quando quero uma melodia)
Lilting through the house (alegrando o ambiente)
Then I want a melody (então quero uma melodia)
By Strauss (de Strauss)
It laughs, it sings (ela ri, ela canta)
The world is in rhyme (o mundo todo está em rima)
Swinging to three-quarter time (gingando no tempo ¾)

Let the Danube flow along (deixe o Danúbio fluir)
And The Fledermaus! (e o Fledermaus!)
Keep the wine and give me song (continue mandando vinho e me dê uma música)
By Strauss (de Strauss)
By Jove, By Jing! (de Jove, de Jing!)
By Strauss is the thing (porque Strauss é o que há)
So I say to ha cha cha (por isso digo para o ha cha cha)
Heraus!
Just give me an oom pah pah (Só me dê o oom pah pah)
By Strauss!* (de Strauss!)

Durante a música, Elizabeth parodiou uma pretenciosa diva de ópera. Ela era uma talentosa atriz cômica, tal qual era talentosa como cantora, e deu um show que fez os convidados da festa rirem durante a performance dela—com exceção de duas pessoas.

Os lábios de Caroline gradualmente curvaram-se, ela rosnava. Ela se inclinou, falando para William em voz baixa, “Quem essazinha pensa que é, se mostrando dessa maneira e tirando sarro de música clássica na sua frente? Ela obviamente não sabe o que é cultura. E o que ela quis dizer com aconselhamento sobre a carreira dela?”

Ele olhava fixamente para o chão de parquet debaixo dos pés dele, impossibilitado de encarar os olhos frios de Elizabeth. Que ela estava com raiva dele já era ruim, mas, além disso, ela estava zombando dele publicamente. Os outros devem ter percebido isso também, e muitas das risadas eram às custas dele.

Quando a música acabou, ele finalmente pôde olhar para cima. Depois de olhar com cuidado para os outros convidados enquanto aceitava os aplausos deles, os olhos dela fixaram-se nos de William, e o sorriso presunçoso dela desapareceu. Ela saiu andando do palco, evitando contato visual com ele. Ele assistiu a ela juntando-se a um círculo que incluía Charlotte e vários membros da Golden Gate Jazz. Bill Collins saiu ansioso no rastro dela, andando como um patinho esquisito atrás da mãe. Risadas vinham do grupo deles. Estão rindo de mim, tenho certeza.

Charles voltou à frente do salão. Ele lançou um olhar divertido, e ao mesmo tempo pesaroso, para William, e então disse, “Obrigado, Lizzy! Agradeço também a Bill Collins, que a acompanhou. E agora, tenho o prazer de apresentar meu amigo que dá bons conselhos, William Darcy.”

William encaminhou-se ao piano, seus passos largos. Ele mal ouviu os aplausos entusiasmados dos convidados, muito desequilibrado emocional e fisicamente para prestar atenção em tais detalhes. Ele ofereceu um gesto curto para a platéia, notando que Elizabeth estava de costas para ele, junto com os membros do conjunto de jazz. Ela estava tão zangada com ele que nem mesmo queria ouví-lo tocar. Uma dor chata latejava no peito dele.

No momento em que os dedos dele tocaram as teclas, a dor—e tudo mais em volta dele—desapareceram. O piano era um bálsamo para a alma dele, o refúgio dele da dor e dos problemas, e a maneira mais primária dele falar do seu coração. Hoje à noite, havia tanta coisa que ele queria dizer, mesmo que ninguém entendesse a mensagem dele.

Ele escolheu tocar uma balada de Chopin. Os momentos sombrios combinavam com o estado de espírito dele, e a última parte, em particular, era um desafio intimidador à técnica do pianista. A peça começava com uma melodia lamentosa, e gradualmente encaminhava-se para um crescendo. Depois, uma canção mais animada—ainda que, para William, expressasse um intenso desejo—surgiu, alternando com o tema original de solidão e arrependimento. A música diminuia e fluia entre momentos delicados, contemplativos, e passagens de intensa, furiosa paixão, enquanto seus dedos longos e sensíveis flutuavam por sob as teclas. Ele derramou todas as decepções e frustrações do dia na música, encontrando nela, como sempre, seu consolo.

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Assim que William começou a tocar, Elizabeth deixou o grupo com o qual ela esteve até aquele momento. Ela ficou de lado, quase que na frente dele, estudando o rosto dele. Ela se sentiu transportada de volta à primeira vez que o viu tocar, dez anos antes, quando ela tinha dezesseis anos e, pela primeira vez, tinha sido afetada pela magia da arte dele. Bem, para ser honesta, uma combinação da arte e dos olhos dele.

A conexão dele com o instrumento era tão intensa quanto ela se lembrava—talvez até mais. Ele derramava os sentimentos dele com uma paixão arrebatadora, dando ao ouvinte a impressão de estar ouvindo um momento extremamente particular sem que ele quisesse. O distanciamento e a reserva dele durante o dia estavam sendo despidos enquanto ele expunha a própria alma, nua, para todos verem. Os olhos dele queimavam com uma grande emoção, e ela achou difícil respirar enquanto o assistia, fascinada.

Ela teria ficado surpresa de ver a dor nos olhos dele no final da música dela. Há muito tempo, ela havia adquirido o hábito de pensar que ele era invulnerável, quase que um deus, alguém que era tão diferente das pessoas comuns que as emoções humanas não conseguiam tocá-lo – alguém tão distante dela que, nada do que ela pudesse fazer ou dizer, afetaria a ele. Ela percebeu o erro dela agora, enquanto era envolvida pela música, que girava em torno dela, gritando de dor e desespero, cantando sobre um desejo muito grande e sobre esperança. A música dele sempre me fez sentir tantas emoções… Como ele poderia fazer isso sem sentí-las ele mesmo?

A nota final, sombria e melancólica, ecoou pela sala, a dor da música não resolvida. William sentou-se sem se mexer no piano por alguns instantes, e então, lentamente, quase que relutantemente, tirou as mãos dele das teclas e levantou-se. Depois de um momento de atordoante silêncio, ela limpou as lágrimas dos olhos dela e se juntou aos outros no aplauso. Os olhos dele encontraram os dela, e ela se preparou para o desconcertante impacto do olhar intenso e fixo dele. Mas ele olhou para outro lado depois de um breve momento, os olhos dele sombrio e encoberto.

Ele deve estar bravo por causa da música. Bom, eu não estou nem aí. Ele mereceu, depois do que ele me disse. Mas ela mordeu o lábio quando pensou na sarcástica “dedicatória” dela, a qual o expôs ao ridículo, na frente dos outros convidados. Para um homem orgulhoso como ele, a humilhação pública seria difícil de engolir. Sim, Lizzy, que ótimo. Pegue um artista genial de renome, e o transforme em seu muro de pichações pessoal, na frente de todo mundo. Você deve desculpas à ele, pelo menos isso. Pelo menos, ele a insultou privadamente. Bem, não inteiramente privadamente, mas também não foi na frente de uma sala cheia de pessoas.

Ela sentiu uma mão em seu ombro e virou-se, para ver Jane atrás dela.

“Lizzy, por favor, posso falar com você por um momento?” Os olhos de Jane estavam solenes.

Elizabeth aquiesceu, e as irmãs foram para um canto sossegado.

“O que a possuiu para tratar William daquela maneira?” Jane perguntou.

“Eu sei. Eu não devia ter feito aquilo. Tudo o que eu queria era cantar a música—só cantá-la, e não dizer nada. Mas acho que me empolguei.”

“Lizzy, tenho muito com o que me preocupar nesse fim-de-semana, esperando que todos se entendam. Não ajuda em nada você insultar o padrinho publicamente. Sei que ele te deixou nervosa, mas você prometeu ser educada com ele.”

Elizabeth suspirou, e olhou para o chão. “Eu sei. Eu estava errada, e sinto muito.”

“Você sabe que deve se desculpar com ele.”

Elizabeth encontrou o olhar firme de Jane. “Eu vou fazer isso. Eu já tinha decidido isso antes de você vir falar comigo. E eu sinto muito se causei a você e a Charles algum embaraço.”

“Na verdade, Charles achou que você foi hilária. No que diz respeito a ele, William mereceu. E os outros convidados provavelmente não entenderam todas as implicações. É com o William que eu estou preocupada.”

“Vou falar com ele agora mesmo.”

“Obrigada.” Jane abraçou Elizabeth e então, abruptamente, apressou-se em juntar-se à mãe, que estava falando rapidamente e em voz alta com a Sra. Bingley.

Respirando profundamente, Elizabeth deu um passo decidido em direção a William, mas o progresso dela foi impedido por uma mão no braço dela.

“Elizabeth?” Bill Collins estava do lado dela.

“Sim, Bill?” Ela se virou para ele e forçou um sorriso.

“Por favor, venha aqui por um instante.” Ele a guiou de volta a área onde os membros da Golden Gate Jazz estiveram reunidos. “Elizabeth, temos uma pergunta para lhe fazer. Claro que sabemos que você provavelmente precisará de tempo para pensar no assunto, e certamente não a apressaremos, mas queremos saber o quão emocionados ficaríamos se você concordasse em fazer isso por nós. E tenha certeza de que a entenderemos se você disser ‘não’, porque—”

Roger Stonefield interrompeu o solilóquio de Bill. “Se você conseguir o emprego aqui em São Francisco, gostaríamos de saber se você consideraria ser nossa nova vocalista. Nossa atual está grávida, e quer parar. Adoramos sua performance—voz fantástica, e você é muito boa com o público—e, de acordo com Bill, você cantou meio que no estilo de jazz.”

“Bem, eu não sei com certeza se me mudarei para cá novamente,” ela respondeu, “mas, se eu voltar, adoraria me encontrar com vocês, e discutiríamos as possibilidades. Embora eu não ache justo dizer que canto jazz—”

“Oh, que maravilha!” O rosto de Bill se iluminou. “Estou tão feliz! Será uma honra tão grande me apresentar com você! Eu mal posso esperar pelo nosso primeiro show…”

A voz dele sumiu enquanto ela lançava um olhar pelo salão, procurando sem sucesso por um homem alto, de cabelos ondulados e escuros.

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garden William estava sentado sozinho, num banco de pedra no jardim. Pequenas luzes brilhavam ao longo do caminho até ali, escondidas no meio da linda paisagem. Uma brisa leve soprava contra o rosto dele, o ar úmido da noite carregando com ele um cheiro de eucalipto, e o som de risadas abafadas e conversas. Ele inclinou-se, os cotovelos equilibrados nos joelhos, e fechou os olhos.

A exaustão tomava conta dele, deixando o ar tão pesado que a cabeça dele balançava, e ele pensou que fosse escorregar do banco, ficando assim estirado no chão de pedra. Ele estava acordado há quase 24 horas, mas as emoções turbulentas do dia estavam finalmente cobrando seu preço, muito maior do que ele esperava. Ele se sentiu em pedaços, sucumbindo ao enorme peso da solidão, muito maior do que qualquer coisa que ele já tivesse sentido na vida dele, maior até do que na infância dele.

Normalmente, ele não se incomodava com a solidão. Ela era uma velha conhecida, confortavelmente familiar. Ele havia crescido como a única criança numa casa cheia de adultos e, pela maior parte da vida adulta dele, ele viajava constantemente—normalmente sozinho. Até mesmo numa sala cheia de pessoas, ele preferia muito mais a posição que tinha, protegido por uma parede impenetrável de reserva. Mas, hoje, nessa noite, algo havia mudado.

Por quê? O que está acontecendo? Ele se sentou reto, passando a mão pelos cabelos. A resposta veio a ele com uma nitidez surpreendente. Elizabeth. Ela invadiu os pensamentos dele, muito mais do que ele gostaria, mais do que ele conseguia explicar. Talvez seja o casamento também, e eu esteja me questionando sobre encontrar meu par perfeito antes que… antes que seja tarde demais.

De repente, os pensamentos dele se misturaram, numa única questão alarmante: E se Elizabeth fosse ‘a mulher certa’? Ele nunca havia reagido de forma tão poderosa a uma mulher. Nunca.

Ele podia pensar em pelo menos cinqüenta excelentes razões para explicar o porquê aquilo era impossível, absurdo, até mesmo digno de risadas. Começando com a família Bennet. Por exemplo, Lydia Bennet, uma bocuda, obscena garota Hooter’s . Eu consigo vê-la nesse exato momento nos terraços de Pemberley, bebendo rum, rindo como uma hiena, e acariciando o jardineiro.

O resto da família não era muito melhor. Kitty não era mais nada além do que uma versão mais fraca de Lydia. O Sr. Bennet estava, sem objeções, por conta própria, mas parecia contente em refugiar-se em comentários irônicos ao invés de tentar regular o comportamento de sua esposa e filhas. E a Sra. Bennet—com sua voz resmungona, suas opiniões desinformadas, e sua ignorância de um comportamento apropriado—era um desastre ambulante. Sim, a Vovó adoraria levar a Sra. Bennet para um chá com ela no Plaza, e apresentá-la a todos! Tenho certeza de que a nata da sociedade de Nova York adoraria ouvir tudo sobre Plácido Flamingo, o famoso cantor de ópera. William vivia num mundo no qual as pessoas como os Bennets simplesmente não se encaixavam.

Ele estava com tesão. Era simplesmente isso. Ela havia estado perto dele do lado de fora da igreja, parecendo uma deusa, e deu ao sistema necessitado dele um choque. E por quê eu não ia querer Elizabeth na minha cama? Qualquer homem gostaria de ver aqueles lindos olhos ficando mais escuros de paixão, sentir aquele lindo corpo dela estremecendo sobre ele…

Estava acontecendo de novo. Ele agarrou as rédeas de seu auto-controle e tentou forçar seus pensamentos para outras coisas. Pense na música dela. Lembre-se da performance que ela deu, ultrajante, com o único propósito de tirar sarro de você. Ele tinha um retrato muito claro de sua mulher ideal. Ela seria sensível com relação aos sentimentos dele, e o respeitaria e apoiaria ele. Ela jamais o exporia ao ridículo publicamente, os olhos dela faiscando de desprezo.

Mas a performance dela foi certamente boa. A música deu uma amostra de uma voz de soprano ágil, e Elizabeth a cantou sem esforço nenhum, enquanto investia nela com personalidade e humor. Além disso, nenhuma outra mulher que ele conhecia poderia ter bolado uma resposta tão rápida e audaciosa às observações dele. Apesar do desrespeito que ela mostrou e do nível de desconforto que ela o causou, ele não podia deixar de admirá-la pela vivacidade e pela presença de espírito dela.

Um sorriso relutante teimava em despontar no rosto dele. Acho que é mais do que apenas tesão. Eu gosto dela também, bastante. Ela é esperta e talentosa, e ela brilha. Mas o sorriso dele foi diminuindo enquanto ele lembrava da raiva nos olhos dela antes dela começar a cantar. Não importa se eu gosto dela—ela obviamente não gosta de mim.

Suspirando profundamente, ele inclinou-se para frente, a cabeça dele nas mãos, e fechou os olhos novamente. Na imaginação dele, Elizabeth se aproximava dele, um sorriso acolhedor iluminando o rosto dela, e se sentava ao lado dele no banco. Ele se viu deslizando um braço, envolvendo os ombros dela, e se sentiu aquecido pela presença dela. Ela se virava para ele, os olhos dela cintilando de adoração, e acariciava o rosto dele carinhosamente. Ele se inclinava em direção à ela, tocando os lábios dela gentilmente com os seus. Ela gemia suavemente enquanto ele a envolvia em seus braços, prolongando aquele doce beijo, e os braços dela furtivamente estavam em volta do pescoço dele. Ela descansava sua cabeça no ombro dele, pressionando beijos suaves pela garganta dele enquanto ela se aninhava nele—

Ele tinha que parar com estas fantasias. Elas apenas exacerbavam a solidão dele. Ela nunca estará em meus braços, no meu colo, ou em qualquer um dos lugares onde eu a imaginei hoje. E a longo prazo, melhor assim.

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moon and clouds Elizabeth moveu-se de mansinho pelas portas de vidro do Terraço, em direção ao pátio. Ela precisava de tempo para pensar, e este parecia ser o único lugar onde ela poderia ficar sozinha. Ela seguiu por uma trilha escura, a testa dela franzida, os olhos dela sem o brilho de sempre.

Por quê é que William Darcy faz com que eu me sinta dessa maneira? Normalmente, ela não era tão sensível às observações de pessoas cheias de pose e egoístas, nem tampouco gostava de infligir distúrbios emocionais em outras pessoas. Mesmo assim, toda vez que William abria a boca, ela parecia terminar magoada, nervosa, ou as duas coisas, planejando uma retribuição. E você com certeza se vingou. Ela encolheu-se ao lembrar da humilhação nos olhos dele no final da música.

Ela havia prometido ser educada com ele, mas mesmo assim, toda vez que eles tiveram qualquer tipo de contato, fagulhas perigosas voavam e impulsos assassinos reviravam o estômago dela. A única solução era manter o máximo de distância possível, falando com ele somente quando estritamente necessário.

Este frágil plano tinha uma falha. Como ela havia dito a Charlotte, ela estava intrigada pelos olhares que escapavam de um homem diferente, daquele que derramou o próprio coração na música dele há alguns instantes atrás. Ele era um homem que ela ansiava conhecer melhor, um homem que parecia falar uma língua que o coração dela entendia. Ainda que, toda vez que ele surgia, ele desaparecia quase que imediatamente, e era substituído por um soberbo aristocrata que não a considerava digna de sua atenção. Qual deles é o verdadeiro William? Eu queria muito saber.

Ela parou para considerar a teoria de Charlotte do comportamento atrapalhado dele. Charlotte possuía um raro insight dos homens e suas motivações, mas nesse caso ela tinha enlouquecido. William podia ter qualquer mulher que quisesse—uma modelo, uma estrela de cinema, uma herdeira milionária, ou qualquer outra coisa que se encaixasse nos momentâneos caprichos dele. Ah sim, claro, ele vai deixar essas mulheres glamorosas de lado para se apaixonar por você.

Além do mais, mesmo que Elizabeth tivesse capturado o interesse dele de alguma maneira, ele mal a conhecia. Qualquer atração que ele pudesse sentir por uma pessoa que conheceu há algumas horas teria que ter relação com o corpo dela, não a mente. A última coisa que você precisa é um homem enlouquecido de tesão tentando satisfazer seus momentâneos desejos incontroláveis.

Sim, era melhor mantê-lo à distância. Ela afastou do pensamento uma onda de arrependimento, e endireitou os ombros. Chega de introspecção. Hora de voltar para a festa. Ela virou-se numa trilha que a levaria de volta ao Terraço.

garden Uma figura estava sentada, curvada para frente num banco de pedra à frente dela. Primeiramente ela não deu muita atenção, mas os pés dela congelaram quando ela reconheceu William. Ela virou-se instintivamente para seguir outro caminho, mas algo sobre os ombros caídos dele a parou. Ao invés de ir embora, ela deu um passo hesitante na direção dele.

“William?” ela disse baixinho, mas ele não respondeu. Ela se aproximou mais, tocou o ombro dele, e falou novamente.

Dessa vez ele recuou e perscrutou-a, fazendo uma careta, aparentemente confuso. “Elizabeth?” Ele começou a levantar-se com custo, mas ela colocou a mão no ombro dele novamente, contendo-o gentilmente.

“Não, não se levante. Eu só queria saber se você está bem.”

Ele mexeu a cabeça lentamente, ainda olhando para ela, em dúvida. “Estou apenas descansando. Estou… cansado.”

“O dia está sendo longo, não é?”

“Sim, está. Você também deve estar cansada.”

“Um pouquinho, mas estou acostumada a sobreviver com apenas algumas horas de sono.”

“Eu também.” A voz dele estava tão baixa que ela tinha que se esticar para ouví-lo. “Mas este dia está sendo exaustivo.”

Eles caíram num estranho silêncio. Ela sabia o que queria dizer, mas não sabia como.

“Você gostaria de se sentar?” ele perguntou, de repente. Ele deslizou pelo banco, olhando para ela, na expectativa.

Ela hesitou, mas não conseguiu resistir à súplica que jorrava dos olhos dele, visível até mesmo naquela luz fraca. Ela se sentou ao lado dele, o olhar fixo na escuridão, os ombros deles quase se tocando. Tanto por manter distância dele…

“Você tocou incrivelmente,” ela disse, suavemente. “Mas, claro, você sempre toca assim.”

“Sempre? Você já me viu num concerto?”

“Várias vezes. De fato, quando você tocou hoje à noite, eu me lembrei da primeira vez que o vi tocando.”

“Quando foi isso?”

“Em Interlochen, dez anos atrás. Você veio passar umas semanas, no verão. Eu vi cada concerto que você deu, e assisti todas as aulas avançadas, mesmo não estudando piano.” Ela esperava que estivesse muito escuro, para que ele não a visse enrubescer.

“Nós nos conhecemos?”

“Mais ou menos. Eu esperei numa fila por uma hora para pegar seu autógrafo, com todas as outras groupies.” Ela rangeu os dentes. Oh, que ótimo. Acabei de me classificar na categoria de ‘fãs risonhas.’

Ela olhou de relance para ele, esperando ver escárnio no rosto dele. Ao invés disso, ele estava sorrindo, e o coração dela pareceu parar de bater. Os cantos dos olhos dele estavam levemente enrugados, e covinhas adornavam o rosto dele. Ele parecia um meninão, charmoso e extraordinariamente atraente.

“Hmmm.” Ele pressionou os lábios juntos, acenando. “Dez anos atrás em Interlochen, eu devia estar com vinte anos. Foi no ano depois de ter me formado na Juilliard.”

“Você se formou no conservatório com dezenove anos?”

“Comecei na Juilliard aos quinze anos. Eu tinha feito o programa deles pré-faculdade por diversos anos, então todos na faculdade já me conheciam. Eu já dava recitais nesta época periodicamente, e já tinha tocado com algumas orquestras.”

“Mas você não estava no segundo colegial? E quanto à parte acadêmica?”

Ele hesitou. “Eu pulei uma série no primeiro grau, e tive cursos acelerados no colegial. Quando me ofereceram a vaga na faculdade—para o outono seguinte—eu estava próximo de acabar meu primeiro ano, mas na verdade já cursava matérias do último ano. Tive um tutor durante o verão, e foi assim que terminei meu último ano, antes do começo do outro semestre.”

Ela olhava para ele num silêncio muito surpreso. Ele não somente era um gênio musical, mas também tinha uma mente brilhante. Os olhos dele olhavam para o chão debaixo dos pés dele, e ela o viu passar a língua pelos lábios. Tardiamente percebendo que o olhar atento dela o embaraçou, ela olhou para o outro lado, procurando algo para dizer. “Você não deve ter tido tempo de jogar muito basquete naquele verão.”

Ela tinha a intenção de fazer o comentário para provocá-lo levemente, mas ele a levou à sério. Ele deu de ombros. “Eu não podia me envolver com esportes.”

“Por quê não? Seus pais o acorrentavam ao piano?”

Ele continuou olhando para o chão ainda, por um longo tempo, antes de responder. “Eu não precisava ser acorrentado, mas, sim, a prática tomava grande parte do meu tempo.”

“Deve ter sido estranho, começar a faculdade aos quinze anos, tão mais jovem do que os outros calouros.”

“Estou acostumado a ser diferente das outras pessoas.”

O tom melancólico da voz dele despertou uma pontada de compaixão. Ela nunca havia considerado esta parte mais negra do talento e da fama. “Você deve se sentir muito solitário às vezes,” ela disse gentilmente.

“Às vezes,” ele ecoou-a, numa voz não muito mais alta do que um sussurro.

Música chegava até eles do Terraço. “Acho que a banda está começando.”

Ele se sentou retamente, e suspirou. “Eu não pretendia mantê-la aqui. Tenho certeza de que você devia estar lá dentro, com seus amigos.”

As palavras dele pareciam dispensá-la. Ela começou a se levantar, mas o olhar de desapontamento no rosto dele a fez sentar novamente. “Na verdade, acho que não estou pronta para entrar, ainda não. Está uma noite tão bonita… Um pouco gelada talvez, para um vestido sem mangas.” Ela esfregou os braços nus para aquecê-los.

Ele tirou o paletó e o colocou por cima dos ombros dela. “Melhor?” ele perguntou.

O meio-sorriso tímido dele tocou o coração dela. “Sim, obrigada.” Ela se enrolou no paletó, sentindo o cheiro penetrante do perfume dele.

Eles se sentaram juntos e em silêncio, e desta vez o silêncio parecia mais aconchegante. Parecia um sonho louco, estar sentada ao lado de William Darcy à luz da lua, usando o paletó dele. Sim, só estamos passando um tempo juntos. Por quê não? Coisas assim acontecem todos os dias. Com outras pessoas.

William quebrou o silêncio. “Elizabeth?”

“Sim?”

“Se eu a ofendi mais cedo com minhas observações sobre sua carreira, sinto muito. Não foi minha intenção. Acho você muito talentosa, e eu… eu peço desculpas.” O olhar de remorso dele fixou-se no dela.

“Eu estava com raiva, mas tive minha chance de trabalhar meu lado agressivo, não é mesmo?” Ela lançou um sorriso mecânico, e então mordeu o lábio. “Eu também tenho que me desculpar com você. Eu não devia ter dito o que disse antes da música. Foi injusto com você, tornar a situação pública daquela maneira.”

“Eu não gostei daquilo,” ele disse, sombriamente, “mas eu suponho ter merecido, de certa maneira.” Ele parou de falar, juntando os lábios. “Eu sei que você ouviu o que eu disse ao Charles esta tarde, antes de eu conhecê-la. Eu lhe devo desculpas por aquilo também. Eu não gosto de ter mulheres empurradas em cima de mim—e isso acontece com muita freqüência—e então eu estava tentando desencorajá-lo.”

“Jane me disse que ela e Charles tinham decido bancar o cupido. Por favor, acredite em mim—eu não pedi para que eles fizessem isso.”

“Esta não é a primeira vez que Charles tentou me arrumar alguém. Algumas vezes eu me pergunto o que ele pensa de mim, considerando as mulheres horrendas que ele escolhe.”

Ela olhou para ele. “Nossa, obrigada hein!” ela disse, lançando a ele o olhar mais frio que conseguiu dar.

Ele a estudou por um momento, confuso, e então encolheu-se. “Oh, Deus, fiz de novo! Eu quis dizer que, normalmente, ele escolhe mulheres horrendas, mas não dessa vez. Eu não acho você horrenda, de maneira alguma.”

“Apenas não do mesmo nível social que você.”

Ele suspirou. “Não era minha intenção que você ouvisse isso.”

“Mas é verdade. Eu sei disso. Sou apenas uma simples estudante de pós-graduação, que vive num apartamento do tamanho de um depósito de vassouras numa vizinhança pobre, enquanto que você deve ter ou uma mansão no Upper East Side, ou uma cobertura, com uma vista incrível do Central Park.”

Ele olhava fixamente para os sapatos, em silêncio.

“E então, qual dos dois?”

“Uma casa no Upper East Side. Embora não seja uma mansão—somente uma casa grande.”

“Quantos andares?”

“Seis.”

“Você sabe o quanto custa uma passagem de metrô?”

Ele suspirou. “Não, não sei.”

“Você nunca esteve no metrô, esteve?”

“Não que eu consiga me lembrar,” ele respondeu, uma nota metálica na voz. “Posso perguntar onde você quer chegar com todas essas perguntas?”

“Só quero lhe mostrar que o que você disse para Charles estava certo. Quero dizer, não tudo. Mas somos realmente de mundos completamente diferentes.”

“Suponho que sim. Mas talvez—”

Ele parou de falar abruptamente. Ela olhou para ele, as sobrancelhas levantadas. Ele balançou a cabeça tristemente. “Deixa pra lá,” ele disse, desviando o olhar dela.

moon and clouds O silêncio caiu sobre eles novamente. Ela olhou para cima, para a lua, que estava quase que obscurecida pelas nuvens. A banda no Terraço terminou uma música, e ela pôde ouvir o aplauso fraco dos convidados da festa.

“Eu tenho uma sugestão,” ela disse, firmemente. “Nós dois nos comportamos muito mal hoje. Vamos esquecer tudo e começar tudo de novo.”

Ele aquiesceu. “Eu adoraria isso.”

Ela ficou de pé, e ofereceu sua mão para ele. “É um prazer conhecê-lo, Sr. Darcy. Sou Elizabeth Bennet.”

Ele também se levantou, um olhar incerto no rosto dele. “O prazer, Srta. Bennet, é meu.” Ele pegou na mão dela e a apertou gentilmente, olhando fundo nos olhos dela.

Eu poderia me afogar nesses lindos olhos castanhos… ôpa, não vamos sair do rumo aqui… Este é ainda William ‘Muito Longe do Seu Alcance’ Darcy, com novo começo ou não. Ela tirou a mão da dele e se sentou novamente.

Ele voltou a se sentar do lado dela. “Incidentalmente, eu notei que suas desculpas não se estenderam à música.”

“É bom mesmo você acreditar que não se estenderam,” ela disse, com um sorriso maroto nos lábios. “Você mereceu a música, apenas não mereceu a dedicatória pública.”

Um sorriso relutante brincava nos lábios dele. “Pelos interesses de um novo começo, vou concordar com isso. E, tenho que admitir que a música foi muito bem. Você é uma talentosa comediante, e sua voz é maravilhosa. Mas, sabe, você provou que eu estava certo com sua pirotecnia vocal. Seu treino vocal clássico apareceu.”

Ela franziu os lábios, e olhou para ele com cara de aborrecida, só para zombar dele. “Você não sabe quando desistir, não é?”

Ele levantou levemente uma sobrancelha, o olhar dele cheio de calor. “Porque desistir quando estou certo e você sabe disso?”

O aborrecimento fingido dela estava se tornando rapidamente genuíno, mas então ela vislumbrou um flash de divertimento nos olhos dele. Nossa, maravilha das maravilhas, o homem tem senso de humor! O aborrecimento dela esvaiu-se sob a influência do contagioso—e estranhamente doce—sorriso dele.

“Suponho que o dia estará lindo para o casamento amanhã,” ela disse.

“Fico feliz.”

“Charles tem uma agenda cheia para você amanhã, começando logo ao amanhecer?”

“Até agora não. De fato, espero poder correr amanhã de manhã, talvez pela Marina.”

“Você corre?” Ela não conseguia imaginar a vida dele fora dos salões de concertos, como se, entre uma performance e outra, ele ficasse escondido nas sombras, como um jovem e lindo Fantasma da Ópera.

“É um bom exercício cardiovascular, é algo que eu posso fazer em quase todo lugar, e que requer quase nenhum equipamento. Como eu viajo muito, isso é essencial.”

“Você corre no Central Park quando está em casa?”

Ele assentiu. “Moro perto, então é conveniente para mim. Você corre?”

“Não. Faço meus exercícios nas minhas aulas de dança.”

“Oh, é mesmo, me esqueci que você também é uma dançarina além de cantora.”

“Você não se lembra? Sou uma cantora num subemprego.”

Ele fez uma careta. “Elizabeth—”

“Desculpe, esqueci. Novo começo e tudo mais. Foi só um lapso momentâneo.”

“Eu sabia muito pouco sobre você quando disse isso,” ele disse, sério. “Eu estava errado. Você é muito mais do que isso.”

O silêncio caiu sobre eles novamente. A banda começou a tocar uma música lenta, a qual ela rapidamente identificou como sendo “Bewitched, Bothered, and Bewildered.” Ela começou a cantarolar junto com a música.

“Vá em frente, cante-a para mim.”

Ela chacoalhou a cabeça numa negação. Ela não estava nada confortável com a idéia de dar um show particular a ele de uma música romântica num jardim nas sombras. “O tom que eles estão cantando não é bom para mim,” ela mentiu.

“Então, dance comigo.” Ele se levantou e estendeu a mão para ela.

“Você quer dizer que quer voltar para dentro?”

“Não. Dance comigo aqui.”

“Aqui? No pátio?”

Ele sorriu. “Por quê não?”

Depois de um momento de hesitação, ela acenou afirmativamente e levantou-se. Ele chegou mais perto dela, pegando na mão dela e puxando-a para mais perto dele. O paletó dele começou a escorregar dos ombros dela, então ele o removeu, colocando-o no banco.

“Você ficará aquecida sem ele?” ele perguntou enquanto os dois começaram a se mover com a música.

“Estou bem.” Isso era dizer muito pouco. A presença dele a envolveu num calor ameno, reconfortante e excitante ao mesmo tempo. Quando ele se abaixou para alcançar uma mecha de cabelos e tirá-la do rosto dela, o toque dele fez com que ela se arrepiasse da cabeça aos pés. Ela sorriu para ele. Se isso é um sonho, espero que ninguém me acorde.

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“Eu amo essa música,” Elizabeth disse, em voz baixa.

William sorriu, mas não respondeu. Eles estavam dançando em silêncio, num silêncio mais profundo do que palavras. Da parte dele, ele estaria feliz com qualquer música que a banda tocasse, contanto que desse a ele a oportunidade de segurá-la em seus braços, mas os sentimentos dessa música combinavam perfeitamente com ele.

Ela suspirou. “Então, você não vai mais falar comigo?”

“Desculpe. Eu estava apreciando a música. Tem certeza de que não vai cantar para mim?”

Ela sorriu e acenou novamente, e ele decidiu que era melhor mesmo que fosse assim. A noite havia sido tomada de uma qualidade surreal enquanto as fantasias dele se misturavam com fatos reais, deixando-o completamente dominado e confuso. Ela se aproximou dele nos calcanhares da fantasia dele de beijá-la enquanto os dois estavam sentados no banco. Primeiramente, ele pensou que ela fosse um fruto da imaginação dele, mas, ao invés disso, a verdadeira Elizabeth tinha dividido o banco com ele—e a solidão também. E agora a banda tocava exatamente a música que ele havia imaginado que ela cantaria para ele enquanto ele a acompanhava. Ele pensou no final quente daquela fantasia, e uma onda de desejo correu pelo corpo dele.

Eu me pergunto, o que ela faria se eu a beijasse nesse exato momento? Provavelmente ela acertaria um soco na minha mandíbula, ou pior ainda, ela me daria um chute no…

Ele fechou os olhos, encostando a bochecha nos cabelos dela, e puxando o corpo dela imperceptivelmente mais para perto do dele. A fragrância exótica do perfume dela intoxicava-o. Ele não conseguia mais se lembrar de todas as razões pelas quais ela era a mulher errada para ele. Ele apenas tinha certeza de que ele sentia que o lugar dela era ali, nos braços dele. Ele lutava contra a vontade feroz de puxá-la para ainda mais perto dele, virando o rosto dela e capturando os lábios macios dela num beijo faminto. Devagar. Respira fundo. Não é porque eu estou pensando feito um animal raivoso que eu tenho que agir feito um!

A música parou, seguida de aplausos esparsos e do som suave de vozes distantes, mas ele continuou se movendo lentamente, no tempo da música que não mais tocava.

“William?”

Os olhos dele permaneceram fechados. “Shhhh.”

“Mas a música parou.”

“Não, não parou,” ele murmurou, olhando de leve para ela, os olhos meio abertos, meio fechados. “Você não consegue escutar?” Fechando os olhos novamente, ele começou a cantarolar a música. Ele soltou a mão dela e gentilmente acariciou os cabelos dela, sentindo-a tremer.

“Você está com frio?” ele sussurrou. Porque eu ficarei feliz em aquecê-la. Ele estreitou o abraço, segurando-a firmemente pela cintura, puxando-a para ainda mais perto dele. Ela respirou, suspirando levemente, e o corpo dela se colou ao dele, a cabeça dela aninhada no ombro dele.

Ele estava, sem dúvida nenhuma, totalmente envolvido pelas sensações. A pressão dos volumosos e macios seios dela contra o peito dele estavam deixando-o completamente alucinado. O cabelo dela era macio como a seda entre os dedos dele. Na mente dele, eles eram rapidamente transportados para o quarto dele no hotel, apenas alguns andares abaixo do pátio escuro. Ele se viu pegando-a em seus braços, carregando-a para a cama, e ele estremeceu de desejo, gemendo, o som vindo do fundo da garganta dele.

“William?” Ela olhou para cima, a preocupação evidente no rosto dela.

Ele olhou para ela, a paixão correndo pelas veias dele, e sussurrou o nome dela. Ela brilhava à luz da lua, linda e gélida, e ele ardia de desejo em possuí-la. Os dedos dele tocaram a macia bochecha dela, e os olhos dele pousaram nos lábios carnudos e convidativos dela, demorando-se lá até que finalmente a razão e o cuidado foram dominados pelo desejo. Ele segurava a cabeça dela nas mãos, e abaixou-se, o rosto dele se aproximando do dela, os olhos dele se fechando.

“William, querido! Aqui está você! Estive procurando por você em toda parte!”

Elizabeth abruptamente afastou-se dele. A mente dele embotada pelo desejo ardente que sentia, ele se virou lentamente, para encontrar Caroline Bingley de pé, atrás dele. Ela tinha um sorriso assassino nos lábios, os olhos dela frios de fúria enquanto ela olhava para Elizabeth.

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* – “By Strauss,” música e letra de George e Ira Gershwin. Interpretada por Christiane Noll, The Ira Gershwin Album.
** – Ballade No. 1 in G Minor, Opus 23, CT 2, de Frederic Chopin. Interpretada por Vladimir Ashkenazy, Chopin: Four Ballades, Four Scherzi.

 

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